Resenha – As aventuras da China Iron
por Patricia
em 20/07/21

Nota:

Em 1872, no auge do processo da consolidação da Argentina como país, imigrantes do mundo todo – principalmente da Europa – chegavam ao país para aproveitar as oportunidades que giravam, principalmente, em torno da produção agrária.

Quando seu marido questionável é levado à força para servir o exército, a jovem China Iron decide seguir viagem com sua nova amiga, a escocesa Elizabeth, pelos pampas argentinos a caminho da terra que o marido de Liz havia comprado.

Juntas, elas vão aprender muito não apenas sobre si mesmas, mas sobre suas respectivas culturas. O Império Britânico seguia firme e forte enquanto a Argentina era uma terra a ser “descoberta”. Liz e China (com pronúncia cheena, significando mulher em quéchua), desbravam os pampas e descobrem uma terra rica em sua diversidade. E também conhecem a intensa violência que existe na região com os gaúchos se preparando para trabalhar na terra e para a guerra que acontecia na expansão e consolidação da Argentina como país.

“Martín Fierro” é uma obra seminal da literatura argentina, um poema épico de José Hernandéz publicado em 1872 e conta a história da contribuição dos gaúchos na construção do país e em sua independência da Espanha. No contexto argentina, os gaúchos seriam mais ou menos como os cowboys americanos – patriotas da terra. Cámara vai nos contar a historia da esposa de Martín Fierro, que teve seu sobrenome traduzido por Liz (Ferro = Iron em inglês). A genialidade dessa inversão da história tão conhecida é dar voz para mulheres esquecidas na literatura de formação do país. E mais, para povos originários dizimados para que a terra fosse conquistada.

Cámara subverte, também, a historia da amizade entre mulheres inocentes e explora a sexualidade de maneira natural e curiosa, enquanto critica a forma como as nações surgem e como as identidades nacionais foram forjadas sobre mitos de areia que mal se sustentam quando analisados com mais profundidade. E mesmo com os temas tão intensos, o livro tem diversos momentos de humor e leveza.

No poema de Hernandéz, Fierro foge dos militares e forja uma camaradagem com um outro gaúcho e eventualmente decide viver a vida junto a uma comunidade indígena. Na obra de Cámara, China foge de uma vida que não queria, descobre a amizade e o amor com outra mulher e, depois de ludibriar o Coronel Hernandéz, decide viver a vida junto a uma comunidade indígena. O Hernandéz de Cámara, aliás, é um homem bruto e em busca de glória pessoal acima de qualquer coisa, com um ego que parece aumentar a cada fala a ponto dele expressar ser “a semente da civilização e progresso” dos pampas.

Não há muita sutileza na escrita de Cámara. Em vez de colocar suas protagonistas como duas mulheres irritadas ou nervosas com o mundo, ela as faz rir dele e de todos os estereótipos que parecem ser tão naturais nos livros de História. “As aventuras de China Iron” é subversivo da melhor maneira.

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