Resenha – As brasas
por Patricia
em 26/04/21

Nota:

A literatura húngara tende a ser esquecida quando falamos do leste europeu. Dado o peso da Rússia – tanto na politica quando na qualidade dos clássicos – a Hungria acaba se tornando a “irmã feia” deixada de lado. Porém, a Companhia das Letras vem diminuindo esse espaço com a publicação do catálogo de um dos maiores nomes da literatura do país: Sándor Márai. Até o momento, já foram traduzidas 8 obras do autor.

As brasas tem um enredo simples e objetivo: dois velhos amigos que não se veem e nem se falam há 41 anos, se encontram no que acreditam ser o final da vida para discutir o passado. Henrik é um general de família rica e reconhecida que vive em um castelo no Cárpatos e Konrad foi um militar húngaro que se tornou cidadão inglês. O encontro é marcante porque algo aconteceu na última vez que se viram que marcou ambos profundamente – algo que o general, principalmente, carregou consigo todos os dias dessas décadas em que estiveram afastados.

Henrik quer tirar as coisas a limpo e, para isso, passa em revisão desde o começo da amizade com Konrad – que ouve em silêncio na sala iluminada por velas do castelo. É assim que o leitor descobre que Henrik acreditava que tinha encontrado um amigo de verdade, daqueles que apresenta-se à família e se torna parte dela, com quem se pode dividir tudo. Eles se conheceram na escola e Konrad vinha de uma família não tão abastada quanto a de Henrik acabando por não ter uma vida social tão ativa.

Henrik tem monólogos longos sobre tudo: a sociedade húngara, a lealdade exigida pelo Rei, o papel de sua família e o orgulho de representá-la nas altas camadas sociais, o casamento com a mulher dos seus sonhos, a queda de tudo isso com a dissolução do Império Austro-Húngaro e sua solidão. E então ele chega nas duas situações que o incomodam e, em uma descrição simplista, abre o coração para Konrad.

Essas situações são duas reviravoltas importantes na história mas são menores se comparadas à ânsia e necessidade que Henrik parece sentir de poder tirar as coisas a limpo, tirar o que estava entalado em sua garganta há tantos anos. É um livro sobre amizade, paixão, traição e perdão. Tudo se resume à força da escrita de Márai que carrega o livro todo nos monólogos que atribui a seus personagens – nada mais acontece. As reminiscência são vivas e bem descritas criando certas cenas de “ação”, mas como toda memória já gasta, eles vão e voltam no tempo em sua conversa.

O título em inglês é (em tradução livre) “As velas queimam até o fim” porque esse é o tempo que dura a conversa – eles começam no jantar e seguem durante a noite até o fim das velas. O livro foi publicado em 1942. O autor era bem visto no país na década de 30 mas com a chegada do socialismo, sua obra foi censurada por mais de 40 anos. Talvez uma coincidência entranha com seu personagem que fica calado sobre uma traição que o marca profundamente pela mesma quantidade de anos.

O livro é curto mas impactante. Quando finalmente deciframos o que os afastou e como isso ocorreu, a narrativa ganha um fôlego extra e é quase impossível parar de ler até terminar porque queremos saber o desfecho de tanta mágoa.

Márai prova que de “irmã feia, a literatura húngara não tem nada.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – As brasas”


 

Comentar