Resenha – As doze tribos de Hattie
por Patricia
em 02/08/16

Nota:

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Em “As doze tribos e Hattie” Ayana Mathis nos apresenta à Hattie Sheperd. Em 1925, Hattie saiu da Geórgia ainda muito nova quando se mudou para a Filadélfia para viver com seu marido August. Chegando lá, ao que parecia, as leis Jim Crow (que legalizavam a segregação entre bancos e negros) não estavam em vigor – uma fuga marcada pelo assassinato do pai de Hattie por homens brancos que o alvejaram e foram embora tranquilamente carregando suas armas. Em muitos estados sulistas, essas leis estariam vigentes até 1965. A segregação racial é apenas um dos temas abordados no livro. Na cidade, Hattie enfrentaria um outro problema: a extrema pobreza e a falta de emprego. Eleito um dos melhores livros de 2013 e publicado no Brasil em 2014, as dozes tribos de Hattie nos mostra a vida triste de Hattie e a de seus filhos nos anos subsequentes.

A autora diz a que veio logo no começo. O primeiro capítulo nos apresenta Hattie na situação que a transformou na mulher depressiva e rígida sobre a qual seus demais filhos comentam depois. Aos 17 anos, ela tem gêmeos: Jubileu e Filadélfia. Os filhos que deveriam simbolizar uma nova era em sua vida, acabam morrendo de pneumonia enquanto a jovem mãe se desespera por não ter meios de comprar remédios para um tratamento apropriado. É um capítulo forte que abre a história de Hattie com uma tragédia que deixa o leitor intrigado para saber se e como será superada.

Cada capítulo subsequente terá como foco um filho de Hattie que nos dirá um pouco mais sobre a mãe e muito sobre o momento do país. Os capítulos são narrados à medida que os anos passam – começando em 1925 e terminando em 1980. Ou seja, temos um arco completo das principais mudanças nos direitos civis nos Estados Unidos (apesar de muitos não serem diretamente citados no livro). Acompanhamos o filho mais velho de Hattie, Floyd, descobrir seu lado homossexual, vemos Six se tornar reverendo, Franklin acabar como soldado no Vietnam depois de perder a mulher devido aos seus hábitos de beber demais e jogar muito; Alice casar com um homem rico mas tornar-se profundamente infeliz; descobrimos que outro filho foi molestado por um homem quando era criança e outras tantas dores que doze descendentes de Hattie tiveram.  Foram ao todo nove filhos vivos, dois mortos e uma neta. O marido de Hattie era um zero à esquerda que, nas palavras da própria protagonista, a fazia muito infeliz.

Toda a família é marcada por algum tipo de violência diretamente ligada à sua condição de serem negros e pobres. Mesmo a filha que se casa com um homem rico, nunca consegue se livrar do estigma de ter vindo de uma família pobre e não ter os modos apropriados para sua nova vida, demonstrando que os negros perdiam mesmo quando ganhavam. Cada filho de Hattie é quase um arquétipo bem montado da história dos negros nos Estados Unidos.

A premissa é interessante e a condução é bem feita, mas a conclusão da obra deixa a desejar. Não sabemos, por exemplo, o final da história de quase nenhum dos filhos de Hattie. À medida que as tragédias vão se somando, temos apenas alguns pequenos vislumbres do que pode ter acontecido com um ou outro, mas sobre alguns filhos não sabemos nada. Com isso, algumas pontas parecem soltas ao final apesar de tudo reforçar a luta da protagonista enquanto reforçam, também, o aspecto melodramático da história de Hattie.

A leitura flui bem mas o leitor não consegue criar nenhum laço forte com nenhum dos personagens citados. Nem mesmo com Hattie que tende a ser arredia e dura em suas emoções (algo que parece ser uma consequência direta da morte de seus filhos). No geral, é uma leitura bela que apresenta ao leitor o contexto da época de uma maneira palpável, mas que deixa a desejar na conclusão e no fechamento da história.

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