Resenha – As Esganadas
por Ragner
em 05/09/14

Nota:

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Sinceramente gostaria de ter o prazer, a disposição e a consagração de conseguir escrever sobre personagens e ambientação nacional. Sempre quando começo a criar uma história e trabalhar um enredo, não tenho conseguido, de forma satisfatória, construir uma narrativa que se passa no Brasil. Entre cidades e personagens regionais ou não, entre ruas que conhecemos, nomes que estamos acostumados ou lugares que fazem parte do nosso cotidiano, acabo não gostando muito, sei lá, fico com a neura de que andar por lugares desconhecidos e dando formato para situações não tão corriqueiras, tudo fica mais interessante, mas quando leio algum autor nacional e me deparo com ambientes não tão anônimos, fico com a certeza de que o erro está em mim.

Gosto muito do Jô Soares. Já teve o Xangô resenhado aqui e fico feliz quando é lançado algum livro dele, mesmo que demore anos. As Esganadas já estava em minha lista de desejos há um bom tempo, mas acabei oficializando a leitura somente agora. Com minha vontade de me dedicar mais à escritores nacionais já estou separando alguns que podem deixar a tarefa ainda mais interessante e esse livro confere uma leitura gostosa, que consegue me prender e alimenta minha vontade de inventar alguns enredos que se passem em nosso país. As linhas escritas pelo Jô me fazem gostar mais ainda dele. A cada parágrafo, a cada capítulo, vou me sentindo envolvido e gostando mais das tramas, interessado por enredos que, sinceramente, me pareceriam fracos inicialmente, mas esse querido apresentador que há anos não acompanho mais pelas madrugadas, se mostra um mestre na criação de intrigas literárias. Alguns livros são melhores sim do que outros e As Esganadas está no hall de melhores. A naturalidade com que ele trabalha questões históricas, com embasamento crítico e verídico, aliado com situações ficcionais é fantástica. E as subtramas dão um gosto a mais em tudo ali, pois ajudam e muito no clima conceitual de tudo que está acontecendo como se fosse real.

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Deixando claro quem é o assassino desde as primeiras páginas, tudo vai ficando ainda mais interessante. Os responsáveis por desvendar cada crime hediondo, se deparam com situações grotescas e até mesmo culinariamente bizarras. O antagonista pode até ser visto como uma figura classuda, que parece especialista em algumas vertentes musicais e culinárias, mas uma alma completamente torturada por desgostos que deixariam qualquer pessoa com complexo de édipo indisposta com suas realizações mortíferas. Já o protagonismo do livro gira em torno de 3 personagens bem diferenciados: o delegado Mello Noronha, que faz o tipo carrancudo e eficiente, o inspetor português Tobias Esteves, que demonstra uma sofisticação e poder de deduções acima da média e a aventureira e destemida jornalista Diana de Souza. Há também o “fiel escudeiro” do delegado, o corpulento, mas medroso inspetor Valdir Calixto, que não chega a ter o valor que os demais tem, mas está sempre do lado do delegado e configura um alivio coloquial e até cômico em toda a trama.

Jô Soares recria uma Rio de Janeiro do final da década de 30 com um teor histórico convincente, que vai desde influências nazistas anteriores à 2ª Guerra Mundial até a Copa do Mundo e programas de rádio. Página à página vamos acompanhando o desenvolvimento de personagens, de maior ou menor grau de importância, com detalhes significativos e que agregam bastante à trama. Uma leitura gostosa e que consegue embalar fácil algumas horas dentre de um busão.

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