Resenha – As mães
por Patricia
em 28/06/21

Nota:

**A resenha pode conter spoilers**

Brit Bennet tem causado certo burburinho com seus dois livros lançados – “As mães” sua estréia, e “A metade perdida” best-seller quase instantâneo que já teve os direitos comprados pela HBO. Resolvi começar pelo começo e ler sua primeira obra antes de me jogar em seu aclamado segundo livro.

A história se passa em uma pequena comunidade negra e muito cristã no sul da Califórnia. Daquelas que todos se conhecem e as carolas da Igreja sabem e comentam sobre a vida de todos. Ou seja, um segredo não dura muito tempo.

A jovem Nádia Turner precisa lidar com uma perda irreparável: o suicídio de sua mãe que a deixou sozinha vivendo com o pai, Robert. Nádia é estudiosa e parece ter um grande futuro pela frente, mas precisa se livrar das amarras do luto e da pequena comunidade sem muita perspectiva que a cerca.

Ela começa um relacionamento com Luke Sheppard, filho do pastor da Igreja. Luke tem seus próprios traumas após perder uma bolsa universitária quando sofreu uma lesão e teve que parar de jogar futebol americano, ao qual sua bolsa estava vinculada. Ele agora trabalha como garçom em um restaurante duvidoso.

Ambos se encontram em um momento de perda em que o futuro parece nebuloso. Esse encontro resulta em momentos felizes que ambos acreditaram que não teriam mais. E resulta também em uma gravidez não planejada e não desejada. Nádia decide que não terá a criança e esse ser o segredo deles. Em uma cidade tão religiosa, ninguém pode saber de algo assim. Por fim, o pastor a chama para trabalhar na Igreja enquanto espera um retorno das universidades e ali ela conhece Aubrey, que parece passar mais tempo na Igreja do que em qualquer outro lugar. Elas se tornam melhores amigas mas o segredo de Nádia permanece apenas com ela.

***

Dizem que o relacionamento entre mães e filhas é dos mais intensos, tanto do lado bom quanto do ruim. Nádia teve uma mãe que desistiu de existir sem nenhuma explicação e deixou um buraco na vida da filha. Aubrey tinha uma mãe que escolheu o padrasto que abusava de ambas e fugiu de casa para encontrar algum conforto. Ambas buscam uma mãe ausente e precisam resignificar o que é uma família e seus papéis nela.

O livro tem poucas reviravoltas e mesmo essas são previsíveis. Bennet prende o leitor menos pelo enredo e mais pelo mergulho nos três personagens principais. Os impactos de decisões e a opressão das expectativas de uma comunidade inteira pode ser angustiante. Quando se tem que lidar com suas próprias expectativas do que a vida deveria ser, é ainda pior. Isso é bem representado quando as personagens tomam decisões que, em outra situação, mudariam suas vidas, mas seus passados a arrastam de volta. A culpa religiosa é, talvez, das mais difíceis de extirpar e vemos aqui também como alguém a pode carregar pela vida toda.

O fato de acompanharmos os personagens pelo período de alguns anos, cria certa urgência na narrativa de entender suas decisões. Bennet captura perfeitamente bem o ambiente de uma cidade pequena, a falta de espaço geral também reforçando a falta de privacidade. Mais ainda, as mulheres – das mais novas às mais velhas – é o que parece manter essas cidades vivas.

Com essa estreia, já estou no bonde Bennet e o próximo livro já tá na mão.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – As mães”


 

Comentar