Resenha – As vantagens de ser invisível
por Bruno Lisboa
em 26/05/21

Qual é o sabor da nostalgia? Para alguns olhar para trás é algo amargo e evitável. Para outros o mesma pode ser um exercício doce e memorável. Ou até mesmo ser um pouco de ambos. Uso esta rasa reflexão introdutória, somente, para ilustrar o quão sensorial algumas obras literárias podem ser. E não há outra maneira de se relacionar com “As vantagens de ser invisível” que não seja guiado por esse sentimento. Ainda mais para quem está na casa dos 40 como eu.

Lançada em 1999, a obra de Stephen Chbosky é ambientada nos anos 90 e tem como personagem central Charlie, um grato frágil emocionalmente, que decide deixar para trás os anos de reclusão familiar e a depressão, para tornar-se protagonista de sua jornada pessoal, encarando as agruras e prazeres da adolescência relacionados as inúmeras descobertas (drogas, iniciação sexual, amizades…), deste período crucial na vida. No segundo escalão dos personagens temos os meio irmãos Sam e Patrick (que agem como amigos-gurus nessa nova empreitada), seus irmãos mais velhos, seus pais e o professor de literatura de Charlie, o qual ele tem profunda identificação.

De maneira pontual a narrativa é costurada por cartas que Charlie escreve para rememorar os momentos vividos. O tom confessional das mesmas traz à tona diálogos e reflexões que fazem com que nos identifiquemos com muitas passagens da obra, nos tornando, por vezes, cumplices/parceiros dos acontecimentos.

Outro ponto positivo de As vantagens de ser invisível é o grande número de referências da cultura pop, pois cria inúmeros links a serem explorados. Mas diferentemente do habitual, onde as mesmas surgem de maneira acessórias ao universo criado no livro, aqui a citação desses elementos cumprem papel crucial, interferindo de maneira positiva na formação intelectual/pessoal das personagens. A título de exemplo, no decorrer da história temos citações a obras literárias diversas (O apanhador no campo de centeio, Este lado do paraíso, Almoço nu, O sol é para todos…), a musicais (Smiths, U2, Fleetwood Mac, Nirvana…), e ao universo cinema e das séries (Rock Horror Picture Show, Minha vida de cachorro, M.A.S.H…).

Treze anos mais tarde a obra ganharia uma adaptação para o cinema, dirigida e roteirizada pelo próprio Stephen Chbosky (com Logan Lerman, Ezra Miller e Emma Watson nos papéis principais) e isto fez com que, não só status cult permanecesse intacto para a velha guarda, como também conseguiu o grande feito de fazer com que uma nova geração de leitores tomasse conhecimento do livro.

Atemporal em sua medida, As vantagens de ser invisível é retrato agridoce da existência. É sobre estar em constante luta pela mesma e de tomar a frente em momentos cruciais. E se para Charlie não cabe na vida o papel da omissão, para nós não há de ser diferente.

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2 Comentários em “Resenha – As vantagens de ser invisível”


Vitória em 26.05.2021 às 21:38 Responder

Pra uma jovem adulta que sente que está apenas começando a tomar as rédeas da própria vida e experienciando as implicações disso, não tem como não lembrar com carinho desse livro.
Ótima resenha, Bruno.

Bruno Lisboa em 31.05.2021 às 15:15 Responder

Obrigado Vitória. E é exatamente isso que você falou: lê-lo na atual conjectura em que estamos foi um misto de alívio pela nostalgia de outros tempos, mas com plena ciência da atualidade, a qual que temos muitas responsabilidades para conosco e com nossos pares.


 

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