Resenha – Autoimperialismo
por Poderoso
em 16/12/20

Nota:

Por Raphael Pantet

“Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua do estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo. 

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas. 

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas. 

Que este amor só me veja de partida.”

Hilda Hilst, Cantares

Uma das grandes análises, involuntárias, do sentimento nutrido pelo brasileiro a respeito de seu país está neste poema de epígrafe, em Cantares (1983 e 1995, mas com edição recente organizada em uma só por Alcir Pécora) de Hilda Hilst. Ambivalente a respeito de um inominável, Hilst usa como personagem um Ódio-Amor, repleto de uma furiosa paixão narcísica por vezes irrompida em violência, agressão, luto, carinho. Amamos tanto. Machuca, cega e persegue. Não à toa, como o verso final “Que este amor só me veja de partida” diz, procuramos estrangeiros para ajudar a desvendar esta pulsão, esperando uma visão distanciada mesmo quando eles próprios cedem aos encantos fúnebres dessa terra. Com frequência esse exercício resulta em platitudes e pseudo-sociologia – ficamos decepcionados quando qualquer brasileiro poderia dizer o que um gringo muitas vezes diz -, mas no caso do Autoimperialismo (2016, Editora Planeta) de Benjamin Moser temos um olhar arguto e sensível para nossas mazelas.

Escritor conhecido por Clarice, (2009, Cosac Naify e Companhia das Letras em e-book), sua biografia de Clarice Lispector bem como suas traduções para o inglês da obra da autora; e vencedor do Prêmio Pulitzer por sua biografia de Susan Sontag (Sontag, 2019, Companhia das Letras); Moser compilou neste livro três ensaios sobre sua vivência no país por meio principalmente da arquitetura – a dedicatória do livro é ao movimento Ocupe Estelita, o cais com uma série de armazéns abandonados no centro do Recife, comprado por um consórcio de imobiliárias com o propósito de construir dezenas de torres comerciais e residenciais – considerando o histórico de projetos recentes há pouca razão para imaginar algo convidativo a pedestres, comércios ao ar livre ou uma área não voltada apenas a si própria; seria um Shopping Cidade Jardim, não um Sesc Pompéia, para dar um exemplo de aproveitamento de estruturas para propósito diferente.

O primeiro ensaio, “Cemitério da Esperança: Brasília aos 50”, trata da cidade construída para arquitetos modernistas e carros, não para seus habitantes. Um elogio da enormidade, imponência agressiva do Estado em comparação ao pequeno cidadão, a negação da sombra em meio ao calor do Cerrado, a expulsão dos trabalhadores responsáveis pela ereção da cidade-monumento aos “arredores” para dar espaço aos políticos e à elite do funcionalismo público, a inflação dos materiais de construção paralisando a verticalização modernista no centro de São Paulo (ainda hoje, imóveis muito populares na cidade), e, por fim, a falta de estabilidade corriqueira em muitas das metrópoles nacionais: o futuro já nasce como ruína.

No segundo, “A pornografia dos bandeirantes”, Moser analisa as estátuas construídas em homenagem aos antigos sertanistas como projeção de um espírito paulista, tornadas ridículas após serem engolidas pela expansão do município e verticalização, avenidas, estacionamentos e shoppings, traçando um paralelo com a construção da então Avenida Central, atual Rio Branco sob a prefeitura de Pereira Passos no Rio de Janeiro, o evento fundador da expulsão de pobres dos cortiços no centro para os morros. A combinação de descaso com mau uso de dinheiro público, regulamentações ineficazes e ojeriza à diversidade cria uma arquitetura feia, repetida em todos os bairros e cidades – sala-varanda-terraço gourmet-envidraçados para todos. Um de seus achados é os monumentos terem mais sentido quanto mais deslocados de seu espaço “natural”.

O terceiro e último ensaio, “Autoimperialismo”, investiga a retórica da invasão e conquista no Brasil moderno, concluindo que o país está num constante processo de submissão violenta contra si, seu próprio território e povo. É um país a se colonizar todo dia, seja por Belo Monte, pela transposição do Rio São Francisco ou pelas queimadas. Embora em nosso próprio Cone Sul tenhamos processos similares como a Conquista do Deserto (obviamente não era terra deserta) na Argentina e a Pacificação da Araucanía (claro, não se tratava de uma missão de paz) no Chile – junto com os EUA (destino manifesto) o único país das Américas a triplicar seu território após a independência -, segundo Moser a diferença no Brasil é sua recorrência e atualidade. Como escreve: “a polícia invadia as favelas; os favelados invadiam as praias; os agricultores sem terra invadiam fazendas; fazendeiros invadiam reservas ambientais; colonos invadiam reservas indígenas”.

Esse processo de extração do ser se daria por uma perspectiva eternamente colonial, de uma terra e povo cujo propósito singular é de exploração. O bolsonarismo parece se encaixar nesta tese da retórica à prática: trabalho análogo à escravidão? Veja bem. Preservação do meio-ambiente? Tem índio trocando madeira por coca-cola, não é um aumento de desmatamentos seguidos de queimadas. Amarre-se tudo numa espécie de nacionalismo irrealizável – uma nostalgia de futuro – onde a morte tem papel central e talvez cheguemos ao ódio-amor de Hilda Hilst; com odes a um suposto passado glorioso, da monarquia ao regime militar, e um ódio pelo devir atrasado – o Esperando Godot das nações. E nos deixando com a triste sensação de que, no Brasil, cidadania, respeito mínimo pelo indivíduo, preocupação com uma arquitetura que encante os olhos e com sua gente ainda estão em baixa. Vamos continuar a ser, antes de tudo, consumidores e motoristas.

***

“A escala esmagadora é, portanto, deliberada. O visitante tem razão de sentir-se esmagado: a paisagem é planejada para subjugar completamente o indivíduo. Como em Versalhes, como na Cuba admirada por Niemeyer, tudo em Brasília está submetido à vontade do Grande Homem, pouco importa quem seja. A mensagem está na arquitetura: por exemplo, nas linhas perfeitamente organizadas dos ministérios. Pouco debaixo da linha do equador, torrando ao sol tropical, essas caixas de vidro estão desprovidas da primeira necessidade deste lugar: sombra. A mais básica consideração climática foi ignorada para fazer uma coisa que poderia fazer sentido no norte da Europa. Como carros estacionados com os vidros fechados, os edifícios são impraticáveis sem enormes aparatos de ar condicionado. Mas não importa: respondem, afinal, à retórica, não à função. As pessoas sentadas nos escritórios são imateriais. O que importa é a fantasia totalitária de ordem e progresso, de linhas retas, de panoramas impecáveis. É difícil não perceber o desdém da cidade para com o povo. Os ministérios podem ser abafados, mas pelo menos há empregos neles. A inovação mais perversa de Brasília talvez seja o “cinturão verde” ao redor da cidade, hectares e mais hectares de pasto vazio e inútil. Em nome de espaços abertos, o cinturão forma um cordon sanitaire em torno da cidade endinheirada, forçando os pobres, centenas de milhares deles, a viverem nas cidades-satélite, incluindo a Planaltina do Vale do Amanhecer, que chegam a distar dezenas de quilômetros do centro. Não é raro que quatro horas diárias – duas na ida, duas na volta – sejam consumidas na travessia por campos vazios em vez de bairros entupidos. Afirmando criar uma nova sociedade, Brasília, como a avenida Central de meio século atrás, simplesmente criou mais favelas.”

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