Resenha – Azul e Dura
por Juliana Costa Cunha
em 22/07/20

Nota:

Azul e Dura é o livro de estréia da autora Beatriz Bracher, umas das fundadoras da Editora 34, na qual trabalhou de 1992 a 2000. E, penso eu, que aí foi que surgiu a escritora. Nesse exercício da leitura de outros textos para edição e também as percepções de si mesma. As descrições editoriais sobre o livro falam em ele ser do gênero romance ou ficção. Eu o li mais como um fluxo de pensamento, no qual a autora intercala o momento atual de Mariana, personagem principal e narradora da história, e suas memórias a partir de um determinado acidente.

Mariana é menina rica, da alta sociedade paulistana, que se casa com um advogado também desta mesma classe social, que está em ascensão na sua carreira e é filho de ministro. Ao conhecer seu futuro marido, Mariana estudava cinema, tinha planos de trabalhar com isso e fazia muita anotações em cadernos e papéis avulsos que, ao longo dos anos, foi guardando em uma mala azul e dura.

Ao longo da narrativa sabemos da mudança de moradia do casal, de São Paulo para o Rio de Janeiro. O nascimento de dois filhos do casal, uma menina e um menino. A ascensão profissional do marido de Marina e seu consequentemente apagamento para dar conta das várias reuniões de negócios e da vida agitada de seu marido.

Mariana nos conta também de um acidente da qual foi protagonista e onde uma garota foi atropelada por seu carro, vindo a óbito. E é nesse ponto que a narrativa dá uma virada. Saindo do cenário quase perfeito da família comercial de margarina, para seu desmoronamento e consequente desmoronamento da personagem principal.

Maria nos conta tudo isso – seu passado e o seu presente, direto de uma colônia de férias nos Alpes Suíços. Lugar escolhido por uma amiga fiel para que passassem um período longe de todos os acontecimentos e que pudessem fazer Mariana emergir. Desta forma descobrimos que Marina deprimiu, tentou suicídio, tornou-se dependente de ácool.

Descobrimos tudo isso à medida que ela vai abrindo sua mala azul e dura, resgatando sua história e reescrevendo outras passagens. Ela vai esvaziando a mala, literalmente, para preenche-la com outras coisas. Nesse novo escrever de si há muito questionamento social, muita reflexão sobre o acidente ocorrido e os caminhos conduzidos por seu marido para livra-la da pena (mesmo que ela não concordasse). Tem todo um questionamento sobre pertencimento e sobre não ter domínio sobre que realmente se sabe das histórias da vida. E, não menos importante, sobre o papel da mulher na sociedade.

Mariana é personagem dessas grandes. Cheias de nuances e revelações. Um livro com uma escrita lírica, mas sem nenhuma condescendência com a personagem. É cru e poético ao mesmo tempo.

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