Resenha – Bad Feminist
por Patricia
em 02/02/15

Nota:

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Feminismo é um termo que acompanha debates intensos. Muitos os consideram uma ameaça, outros falam de exagero. Atribuo a isso o fato de que é muito plausível que alguém que já leu muito sobre feminismo continue com algumas dúvidas (estou presumindo que as pessoas que criticam o movimento SAIBAM do que estão falando. Desconsidero totalmente críticas vazias de gente que nunca estudou nada sobre). Feminismo é um tema que me interessa muito, tanto por suas plataformas (pelo menos as que entendo) quanto por suas intenções abertas de igualdade. Mas, muitas vezes, ainda há situações em que é difícil identificar a “resposta feminista” correta – se é que isso existe.

Bad Feminst tem sido comentado em quase todo site que visito sobre feminismo de maneira muito positiva. Eu, que raramente caio nessas coisas de “todo mundo leu, quero ler também”, acabei comprando o livro na gringa mesmo (já que, até onde sei, não tem previsão de ser traduzido para o português). Para explicar o impacto, uso as palavras da reportagem d’O Globo que entrevistou a autora recentemente:

Lançada em agosto passado nos Estados Unidos, a publicação fez sucesso ao misturar memorialismo com crítica cultural. A revista “Time” chegou a anunciar: 2014 é “o ano Roxane Gay”.

A autora começa logo de cara já explicando o que ela quis dizer com o título “Feminista ruim” ou ” Má feminista” – termo que exige a explicação já que pode ser totalmente mal interpretado. E seu raciocínio é claro: se ninguém é perfeito, o movimento também não pode exigir ações, decisões e respostas perfeitas de todo mundo. Podemos rir de piadas que diminuem mulheres, dançar ouvindo uma música sexista ou de gostar de livros que objetificam as personagens femininas. Isso acontece porque além de nossas próprias falhas pessoais, também estamos à mercê de “instituições” que nos dizem o tempo todo que tudo isso é bom e reclamar muito seria exagerar. Afinal, é “só um livro”; é “só uma música”; é “só uma piada”. Me identifiquei logo nas primeiras linhas com esses questionamentos porque são similares aos meus. Partimos de um bom começo.

Um dos temas mais abordados no livro é a representação da mulher no cinema, na literatura (principalmente) e na televisão. Há 2 anos resenhei “Feios” de Scott Westerfeld e comentei sobre um documentário interessante que havia visto recentemente: Miss Representation. O documentário analisa como as mulheres são retratadas pela mídia norte-americana e entrevista mulheres em âmbitos diferentes que corroboram a tese de que o que vemos na mídia não é uma representação muito realista. Uma das entrevistadas, Marie Wilson – criadora de diversos projetos feministas e autoras de livros sobre o assunto – disse algo importante e que, quase sempre me volta à cabeça: “You can´t be what you can´t see”.

Essa é a grande importância da representação correta de mulheres em qualquer mídia. Como você poderia dizer para uma menina de 7 anos que ela poderia ser Presidente se ela nunca tivesse visto uma mulher Presidente? Ou engenheira? Ou dona do Magazine Luiza? Ou Amal Alamuddin? E o mesmo pode ser dito para qualquer profissão que não seja “tipicamente” feminina. Quanto mais o que conhecemos difere do que desejamos, mais difícil fica justificar esses desejos.

Partindo de temas aleatórios (livros, música, comediantes, casos recentes nos jornais) para fechar cada ensaio com um desfecho bem provocador, a autora consegue guiar o leitor pelos seus pensamentos elegantes, objetivos e, muitas vezes, bem engraçados – os comentários dela sobre a trilogia “50 tons de cinza”, por exemplo, são uma obra prima. Ri quase até passar mal no transporte público.

Mas nem só de momentos divertidos é feito o livro. Roxane foi estuprada quando era jovem e aproveita para dividir parte dessa tragédia pessoal com os leitores, enquanto analisa o discurso da “cultura de estupro” na mídia. Como observadora mordaz da cultura pop, Roxane utiliza lembranças pessoais para pintar uma tela bem depressiva da cultura geral. Esse é um tema que ela aborda algumas vezes, mas não constantemente. A escrita visceral que ela utiliza nesses momentos torna esses ensaios bem intensos, causando até um mal estar físico (pelo menos se você for sensível ao tema).

Nem todos os assuntos são realmente interessantes ou despertam o mesmo sentimento, mas o conjunto da obra é bem forte. É muito bom quando lemos um livro que não só levanta tantas questões importantes, como também consegue explicar de maneira tão didática um ponto de vista. Ligada em praticamente todos os meios de interação (a autora se diz viciada no Twitter), Roxane consegue como poucos olhar esse vasto mundo da internet e comprimir tudo em um contexto prático. A escrita é bem tranquila e cada tema é abordado quase como se fosse uma conversa de bar em que ela está te explicando algo muito importante e você não consegue parar de ouvir, mesmo que a cerveja esquente.

Li alguns ensaios por dia, sem pressa, aprendendo, avaliando e internalizando o que lia. Confesso que em alguns momentos repensei reações que já tive no passado – a maneira como encarei filmes e livros sem pensar exatamente no todo, justamente porque o meu contexto é diferente do de Gay. Por exemplo, a autora odiou Django, A Resposta e Orange is the new black. Em sua justificativa centrada em raça ou diversidade, notei que eu não tinha pensado em diversos aspectos quando assisti esses filmes e a série, mas que são extremamente válidos. Só que, para mim, ainda são um blind spot a ser trabalhado. Foi realmente interessante ver o lado dela e repensar a maneira como avalio o que assisto, leio, vejo, ouço.

Entrou na lista de favoritos e pretendo reler alguns dos ensaios sempre que a vida se mostrar difícil. Fechei o livro achando que eu precisava ser uma pessoa melhor e Gay me faz pensar que isso não seria impossível.

Genial seria dizer pouco.

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5 Comentários em “Resenha – Bad Feminist”


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Paulo H. De Cesare em 03.03.2015 às 22:24 Responder

Hoje em dia nada mais politicamente que um homem feminista. Fico devendo. Na minha compreensão na maior parte do mundo ocidental o feminismo se tornou ocioso, serve apenas para fazer barulho por meia dúzia de bobagens.
Por outro lado, em muitos países, sobretudo os muçulmanos, o feminismo ainda tem trabalho por fazer.

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Patricia em 04.03.2015 às 08:28 Responder

Concordo com o trabalho a ser feito nos países muçulmanos. Mas discordo do movimento ter se tornado ocioso. Há muitas coisas que ainda não são iguais e ainda há homens que tratam mulheres como coisas ou puro desrespeito aqui no Brasil mesmo. A estrutura se mantém e eu entendo que eu dizer isso como mulher não quer dizer muita coisa para quem não a experimenta. Talvez vc nunca tenha tratado uma mulher dessa forma e não conheça homens que o façam, mas ainda assim, a estrutura de machismo existe. A luta pelo direito ao aborto não é bobagem. A questão de salários e oportunidades iguais não é bobagem. A questão da violência contra a mulher e homossexuais não é bobagem. São questões importantes e que devem continuar sendo debatidas.

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Patricia em 04.03.2015 às 08:50 Responder

Acho que faltou uma palavra depois do politicamente no seu comentário. Não sei se você quiser dizer correto ou incorreto, mas sou fã de homens feministas. Principalmente os que estão aprendendo como eu. 🙂

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letícia em 13.04.2015 às 10:54 Responder

Eu já vi esse livro, mas nunca me interessei em ler, porque levei pro lado errado o título…imaginei que seria mais um filme falando como feministas são mal amadas e como o feminismo não é mais necessário…ai cheguei aqui por causa da resenha de Hibisco Roxo, fui vendo o blog e resolvi ler a resenha.

Meus parabéns pela resenha, foi bem clara e objetiva e tirou meu “preconceito” com o livro. Já entrei no book depository pra ver o valor porque quero ler, hahaha. Parece mesmo que aborda assuntos bem interessantes.

E já aproveitando e falando do primeiro comentário: feminismo é necessário em todo lugar. Quantas mulheres morrem na mão dos maridos/namorados? Quantas apanham, tem salários inferiores fazendo o mesmo cargo…? Tem uma galera (e ironicamente homens) que acha que feminismo já fez seu papel dando direito ao voto às mulheres e nossa…não…rs.

Enfimmmm!
Gostei do blog!

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Patricia em 13.04.2015 às 11:04 Responder

Oi Letícia, cara….obrigada pelo comentário.
Ganhei o dia agora. 😀

O que posso dizer é que esse livro derrubou muito preconceitos que eu nem sabia que tinha, sabe?!
Até hoje ainda penso em algumas passagens dele em certas situações.
Se você ler mesmo, me conta o que achou depois….gosto muito de saber o que outras leitoras acharam desse livro.

E sobre seu último parágrafo – mandou bem! 😀
Sem mais nada a acrescentar.

Beijos!


 

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