Resenha – Baixo Esplendor
por Juliana Costa Cunha
em 19/08/21

Nota:

Marçal Aquino volta à literatura 16 anos depois de seu último livro. Nesse hiato, dedicou-se à criação de roteiros para série e cinema. Como é um roteirista bastante requisitado e volta para a literatura com a mesma pegada na escrita de sempre, penso que esse hiato lhe fez bem e lhe deu mais lastro.

Em Baixo Esplendor acompanhamos a vida do policial da inteligência, Miguel. Ou, melhor dizendo, acompanhamos a vida de Miguel, nome utilizado pela personagem central da obra, que está infiltrado no bando especialista em roubo de cargas para desmontar o esquema. Da vida real de Miguel conhecemos muito pouco. E este pouco que conhecemos é salpicado no meio da história em que a personagem vivencia em função de seu trabalho, fazendo a vida real tomar segundo plano e o fictício ganhar cada vez mais proporção ao longo da narrativa.

Marçal Aquino domina muito bem esse jogo de cenas e temporalidade. Como exemplo temos o fato do livro ser narrado em plena década de 70, período mais duro da nossa ditadura militar, que surge como tema, mas em segundo plano. Percebam, o autor não menospreza a ditadura. Todas as cenas em que fica evidente o horror daquela época ele o registra. Sabemos que ela estava lá. Porém não é esta a história que ele quer narrar. 

Miguel é uma personagem tão bem construída na sua persona infiltrada no bando que não sabemos sequer seu rosto. Não conhecemos muito suas características físicas. E nesse jogo perfeito de policial infiltrado o que é sua vida real e aquela criada para dar conta de sua missão enquanto policial vai se misturando. Principalmente quando Nádia, irmã do chefe do bando ao qual ele deve prender, entra em cena. Bem, aí nós entramos na parte do romance policial característico. O perfil policial sexy que se envolve com a irmã do chefe da gangue.

As histórias se confundem e a saída de cena do policial em função da conclusão de sua missão, trás todas as dores vivenciadas por uma separação. Mas até chegar ao desfecho final muitas coisas acontecem ainda. E é na maestria da escrita de Marçal que a gente vai se envolvendo com o enredo, mesmo que em alguns momentos questione esse macho alfa policial e a eterna pulsão sexual nesses enredos policiais.

É também seguindo essa maestria na escrita que a gente se perde e se encontra nos diálogos não demarcados no texto e o jogo entre passado-presente e vida real X fictícia de Miguel. Ler Marçal é se enveredar numa escrita primorosa e se deixar levar pelo que ele quer nos contar.

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Livro enviado pela editora

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