Resenha – Belo mundo, onde você está
por Patricia
em 07/12/21

Nota:

Resenha em parceria com @livros_da_de

Segundo o New York Times, Sally Rooney é a autora representante da geração Millennial. E não é por menos: seus três livros têm como personagens principais jovens adultos dessa geração, têm em comum a insegurança, uma grande dificuldade de se relacionar e de expor seus sentimentos. Seu sucesso explodiu com “Pessoais normas”, seu segundo livro, lançado em 2018 e vencedor de alguns prêmios europeus, que foi adaptado em 2020 em uma minissérie para o Hulu. Ela tem sido chamada também de “a Salinger para a geração Snapchat”, e talvez por isso seus livros não agradem a todos os públicos: pessoas da geração anterior, que ainda se lembram de como era a vida antes da internet, nem sempre se identificam com os personagens.

“Belo mundo, onde você está” é seu terceiro livro e acompanha a vida de quatro irlandeses na faixa dos 30-35 anos. Alice, uma jovem escritora que ficou riquíssima com um romance recém-lançado, acabou de se mudar para uma cidade litorânea, e pouco movimentada, após uma crise de pânico e ansiedade. A história começa com o primeiro encontro de Alice e Felix, um repositor de supermercado da cidade que ela conheceu pelo Tinder. O encontro é morno, mas ela acaba convidando-o para sua casa onde antes funcionava um Prebistério. Por um outro lado da narrativa temos Alice e Eileen. Elas são melhores amigas desde a faculdade e se correspondem principalmente por longos e-mails em que atualizam uma à outra sobre o que acontece na vida e em que colocam devaneios aleatórios e análises sociais. Eileen tem um relacionamento meio como “amizade colorida” com Simon, que conhece desde jovem (ele, 5 anos mais velho) quando ele veio trabalhar com sua família. 

Alice se tornou famosa quase do dia para a noite ganhando muito dinheiro e prêmios e não parece saber o que fazer com essa fama – algo que pode reverberar muito da própria Rooney. Ela tirou um tempo do olhar público e só agora está retomando a rotina de participar de eventos literários e tentar escrever um novo livro. 

Eileen está lutando com uma vida que não parece ter um sentido muito profundo. Ela é inteligentíssima, mas trabalha numa revista literária onde ganha pouco e, por isso, divide um apartamento com um casal que ela acredita que “não gosta dela”. Em casa, ela passa a maior parte do seu tempo livre no quarto, na internet procurando informações sobre seu ex, que a deixou depois de três anos morando juntos. Ocasionalmente, ela sai com amigos do trabalho e também tem encontros com Simon quando ele não está com a jovem com quem está saindo no momento. A “piada” constante do livro é que Simon gosta de mulheres mais novas.

O livro tem um tom melancólico e a história se desenvolve ora em terceira pessoa, ora por meio dos e-mails. Por toda a obra, há uma constante discussão do que significa viver nessa específica época. As relações examinadas giram em torno da ambivalência de expectativa X realidade, o que queremos e o que conseguimos ter em dado momento. E, claro, como isso afeta a saúde mental de cada um. 

É um livro sem enredos e reviravoltas, focado prioritariamente nesses personagens que precisam tomar decisões nem sempre fáceis e constantemente lidar com a auto avaliação, o julgamento alheio e o que isso, de fato, significa para eles. O que nem sempre são questão simples e algo que pode ressoar com qualquer leitor. Afinal, quem nunca passou por relacionamentos dúbios e dúvidas extensas sobre o próprio auto valor? 

Os assuntos cotidianos tratados nos e-mails não são aprofundados e alguns são tratados de forma quase com uma descontração que minimiza sua importância. Sobre o mundo, por exemplo, fala-se de BREXIT, mas não de como afeta os refugiados com quem Simon trabalha ou mesmo as multinacionais, como Amazon ou similares. E apesar de ser baseado na Irlanda, nem mesmo se fala sobre a tensão criada com o BREXIT na fronteira com a Irlanda do Norte com a aplicação das novas regras – tensões que fizeram ressurgir velhas feridas sobre o IRA. Mesmo quando o assunto são as mudanças climáticas, não há nada que seja realmente relevante sobre como isso pode afetar a vida as personagens. Apenas entendemos que elas consideram as questões e seguem a vida normalmente.

Um artigo recente do Guardian sobre o livro comenta sobre a estrutura limpa de Rooney e a forma como isso reflete em cada leitor. Talvez, diz a autora do artigo, o que cada leitor tire de uma história de Rooney tem a ver com a forma como ele próprio vê o mundo. E essa parece ser a melhor explicação possível para o amor e ódio que Rooney tem recebido – ou as pessoas adoram suas obras, ou não. 

O conflito de Alice com a fama foi a parte mais interessante da obra e deveria ter sido mais discutido. Rooney faz um ótimo trabalho em mostrar como Alice perdeu um pouco de sua própria personalidade para virar o que cada um queria dela esquecendo, talvez, o que ela própria queria e isso a levou a uma espiral ruim. Mas o resultado de ir para uma nova cidade e encontrar um cara x (que é bem pouco agradável no geral), é uma resposta simples a uma questão bem mais profunda. 

No geral, os quatro protagonistas são desinteressantes. Talvez porque tanto do que é discutido já é algo que existe diariamente em cada um de nós e tem sido discutido à exaustão (alô, coaches). Talvez porque é difícil ter empatia o suficiente para pessoas de 30 e poucos anos que não conseguem dizer com clareza o que querem e como querem (a questão das diferentes gerações). Nesse sentido, Rooney realmente consegue fazer com que o leitor talvez se analise mais do que analisa a própria obra. 

“Belo mundo, onde você está” é um bom livro e é bem escrito. Responde a anseios claros de uma geração que está entre saber se comunicar e saber ouvir. Mas, pessoalmente, seria importante ter mais profundidade para discutir uma geração tão perdida. 

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O livro foi enviado pela editora.

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