Resenha – Billy Summers
por Patricia
em 03/12/21

Nota:

*Gatilho: violência

A resenha pode conter spoilers.

Stephen King (já resenhado diversas vezes aqui no Poderoso) é um autor eclético. Apesar de ser mais associado ao gênero de terror, King parece ter habilidade para compilar diversos gêneros em um mesmo livro. “Billy Summers”, seu mais recente lançamento, é um misto de suspense e biografia ficcional (explico o termo em breve).

Billy Summers é um ex-fuzileiro condecorado, lutou no Iraque e se tornou um atirador de elite do exército. Quando se aposentou, colocou essa habilidade à disposição de quem quisesse pagar. Sua única regra era que mataria apenas “pessoas ruins”.

Conhecemos Billy quando ele está pronto para executar seu último trabalho. Com o maior pagamento já oferecido em sua carreira (2 milhões de dólares), Billy deve matar Joel Allen que é um conhecido assassino de aluguel e está preso. A ideia é calá-lo antes que ele entregue sua lista de clientes em troca de uma sentença menor. Mas King já nos dá o prenúncio de que algo está errado.

Billy constrói sua história por alguns meses enquanto espera o momento certo de agir. Ali, ele faz amizade com os vizinhos e vira quase parte da família que mora na casa ao lado. Depois de feito o trabalho, o personagem central se esconde na cidade e acaba salvando uma jovem de 21 anos, Alice, de três homens que a haviam estuprado.

Summers é um assassino de aluguel mas também é um apreciador de literatura e lê Zola, Camus, Hemingway, Faulkner, Dickens, entre outros e, parte de seu disfarce, é fingir ser um autor. Como ele leva essa tarefa a sério, o leitor tem acesso a suas memórias em sua “autobiografia” que contextualiza muito de seus traumas: do assassinato da irmã aos 9 anos quando ele ainda era pré-adolescente até a guerra do Iraque e como ele entrou nesse “emprego”, tudo nos leva a entender melhor Billy enquanto cria um mecanismo narrativo mais dinâmico do que apenas ele contando sua vida para alguém. Ou, o que a promotoria chamaria de “atenuante”. São as tentativas de King de nos mostrar que Summers é um homem ruim talvez, mas melhor do que os homens que ele assassina. Para a proposta do livro dar certo, precisamos torcer para que ele escape dos problemas que vão surgir.

A maior parte de minha experiência com King, até o momento, envolve a criação de um mundo quase mágico em que coisas ruins acontecem. “O iluminado”, “Novembro de 63”, “O cemitério” (entre outros) são livros em que, apesar de nos colocar em uma cidade “real”, o autor nos pede que suspendamos a crença do que é normal ou não e ele consegue criar esse contexto com maestria. Em “Billy Summers” não só temos uma situação plausível, como ela fica mais plausível a cada página. Os comentários sobre Trump também colocam o livro em um espaço e tempo muito específicos. Este não é um livro de terror, e sim de suspense e crime. E King não deixa nada a desejar no quesito reviravoltas sórdidas a grandes nomes do gênero como John Grisham e Scott Turow.

Ainda assim, o livro é morno. Dado o ritmo lento, intercalado com as lembranças de Billy, há momento em torcemos não pelo personagem principal, mas para algo acontecer. É difícil também de se conectar com qualquer personagem da história. As tentativas de transformar o protagonista em um “homem de princípios” expurgando seus pecados ao salvar uma mulher e vingá-la junto a seus estupradores é forçada. Uma vítima que aparece bem quando Summers precisa se redimir do assassinato que acabou de cometer. Mesmo sua juventude triste parece tirada de uma novela mal feita das 8. Tudo o que podia dar errado, dá. É como se King nos dissesse que Summers não teve outra opção a não ser se tornar um assassino de aluguel.

Sendo Stephen King, o livro é bem escrito e tem lá seus momentos até divertidos. Entretém, mas não chega aos pés de obras anteriores do autor.

***

O livro foi enviado pela editora.

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