Resenha – Canção de ninar
por Patricia
em 01/08/18

Nota:

 

Se você acompanha o mundo literário, já deve ter ouvido falar desse livro. Slimani causou alvoroço na França com o lançamento de “Canção de Ninar” vencendo o prestigioso Prêmio Goncourt em 2016.

A resenha pode conter spoilers. 

A história começa com uma inversão dos livros policiais: ao invés de nos contar a história para entregar o desfecho no final – sabemos na primeira página que a babá filipina Lousie, mata as crianças de quem cuidava quase como filhos. Página 1, primeiro parágrafo. Nas páginas e capítulos seguintes, Slimani vai dissecar a história da babá e da família que a contratou. A receita funciona. O leitor está preso desde a primeira página dada à mórbida curiosidade humana de entender a motivação de crimes que parecem não fazer sentido.

Myriam estudou para ser advogada mas colocou a carreira em pausa quando a filha nasceu. Antes que ela pudesse pensar em voltar a trabalhar, ela estava grávida do segundo filho. Porém, enquanto sua primeira gravidez foi incrível, a segunda foi um terror além de, claro, cuidar de duas crianças se mostrou um desafio muito maior do que cuidar de apenas uma. Ela decidiu que precisava de mais na vida do que ser mãe. Em uma conversa com o marido, ela decide voltar ao trabalho e eles começam a buscar a babá que vai ajudar a família a voltar aos eixos.

Depois de muita busca, eles encontram Louise. Uma filipina que quase parece uma criança e, talvez por isso, se dá muito bem com os dois pequenos. Louise cuida das crianças e da casa com primor. Sua comida é deliciosa e até os amigos de Myriam e Paul ficam impressionados quando aparecem para um jantar. Com esse suporte, Myriam consegue se dedicar mais e mais à carreira e começa a conquistar casos importantes. Por outro lado, esses casos também exigem que ela fique cada vez até mais tarde no trabalho. Paul, engenheiro de áudio, também começa a ter mais sucesso sendo chamado para produzir álbuns de artistas relevantes.

Mas nada disso importa porque as crianças têm a santa Louise. Quando a família decide viajar para a Grécia para um merecido descanso, o casal discute se devem ou não levar Louise, mas a decisão vem fácil: claro que sim. Ela é praticamente família, afinal.

***

A autora dedica um tempo considerável a contar a historia de Louise. Ela mora em um apartamento pequeno, caindo aos pedaços e cada minuto que não está com os filhos de Myriam e Paul, ela está sozinha em uma casa. Aos poucos, descobrimos que sua vida foi uma sucessão de tristezas. Porém, o ato que ela comete ao início da obra não está justificado e nunca é realmente justificado na obra.

Então descobrimos mais e mais sobre Louise…sem nunca, de verdade, ser possível pontuar o que a levou a assassinar as crianças. Ao final do livro, toda a tensão criada parece ter sido para nada. É apenas uma história muito trágica que, pasmem, foi baseada numa história real!

A história real aconteceu em Nova York e a babá era dominicana. De fato, Yoselyn Ortega foi julgada esse ano e condenada a prisão perpétua. Em sua defesa, ela diz que tem uma doença mental e que não entedia que estava fazendo algo errado. A promotoria disse que o assassinato foi uma maneira de protestar seu cronograma cheio e o excesso de trabalho. Membros da família alegaram que ela estava perdendo a razão e se comportando de maneira bizarra dizendo que “via sombras” atrás dela e das crianças e “ouvia vozes”.

Slimani trouxe essa história para sua realidade na França: colocou uma imigrante filipina no centro da história para mostrar como essas pessoas são consideradas cidadãs de segunda classe no país. Além disso, trouxe a discussão atual de mães que querem manter a carreira mas, claro, precisam de apoio para isso. São conversas importantes e atuais. Porém, o que me fez tirar algumas doses de café da análise da obra é que Slimani diz quase tudo o que o leitor deve pensar.

A mulher que recebe Myriam na agência de empregos presume que ela é quem busca uma vaga por causa de seus cabelos cacheados e sua clara descendência africana. Outro homem faz um comentário “claramente misógino”. Essas são coisas escritas pela autora e não analisadas pelo leitor. Pessoalmente (e vale dizer que cada um é impactado por um livro de maneira muito pessoal), não me agrada quando o autor diz o que devo pensar de determinada ação. E acredito que colocar algo assim é a saída fácil ao invés de descrever traços e diálogos que nos levariam a esta conclusão.

O fato de que capítulo após capítulo a tensão crescia sem nenhuma conclusão me deixou com a sensação de que há muitos temas discutidos na obra, mas não temos um encerramento de verdade para o principal: o crime. Temos atenuantes e agravantes por toda a história mas nada que dê um final satisfatório, um motivo claro (mesmo que tão maluco quando o motivo da babá real).

De qualquer forma, é compreensível que o livro tenha suscitado tanto furor por onde passou. Vivemos numa época em que as mulheres estão neste meio termo entre serem mães ou profissionais lidando com a culpa, o julgamento, a pressão da sociedade e, mais do que nunca, babás são contratadas para “fazerem parte da família”. O tema é atual. Vale a leitura do livro para entrar nessa discussão, só não espere um thiller intenso com um final de verdade.

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1 Comentário em “Resenha – Canção de ninar”


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Aryane Braun em 08.07.2019 às 10:39 Responder

Oi!
Li este livro recentemente, indicado por uma amiga que me emprestou ele. Eu tinha grandes expectativas em relação a ele, pois a minha amiga disse ter gostado muito. Expectativas que cresceram logo após eu ler o início do livro que é o assassinato das crianças. Segui na leitura, esperando encontrar uma explicação, um porque, e fiquei frustrada porque não encontrei uma resposta satisfatória, apenas suposições podem ser feitas a respeito. Mas achei interessante que a medida que Louise vai tendo a vida desmascarada pela autora ela vai se tornando assustadora ao invés de a babá perfeita. Me lembrou um pouco aquele filme: “A órfã” , no qual a verdadeira natureza da órfã que é a personagem principal, é ocultada na maior parte do enredo.


 

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