Resenha – Cartas a um jovem contestador
por Patricia
em 12/01/15

cartas a um jovem contestador

Em um mundo em que opiniões no Facebook são fundamentadas por 1-2 páginas de internet (e, às vezes, de fontes duvidosas), ler Hitchens é como um banho de água gelada. 2014 foi um ano interessante de acompanhar para quem gosta de debates políticos como eu. Ver que a internet se tornou um reduto tão intenso de pessoas que acompanhavam notícias políticas e formavam sua opinião quase sem embasamento nenhum foi um pouco triste (e olha que nem estou falando dos comentaristas de portais).

Tive aulas de Ciências Políticas na faculdade e lembro que a professora sempre falava algo que até hoje considero importante – temos que aprender a questionar. E isso significa não apenas entender o que lemos, mas onde lemos, qual a fonte, qual a base daquela notícia, qual o viés. Aprender significa não ler apenas uma vez e imediatamente postar no Facebook com hashtags genéricas. Aprender significa pesquisar, ler mais, se interessar mais do que aqueles minutos que você perdeu lendo uma notícia de 3 parágrafos.

Tenho, porém, esperanças de que 2015 será melhor e sou otimista quanto a evolução dessa conversa toda. E justamente por isso resolvi abrir 2015 lendo “Cartas a um jovem contestador” de Hitchens. Já li seu livros de memórias, Hitchens 22. O autor raramente fugia de um debate e seu nome quase sempre é associado com opiniões que muitos consideram radicais contra dogmas religiosos e algumas vertentes políticas.

Em “Cartas a um jovem contestador”, Hitchens utiliza-se de um modelo inspirado no livro “Cartas a um jovem poeta” de Rainar Maria Rilke que consiste de cartas em que o autor destrincha alguns de seus pensamentos mais profundos a um jovem que lhe pediu ajuda para tornar-se poeta. Hitchens segue isso, mas sem uma contrapartida – o livro é uma coletânea de ‘cartas’ que ele escreveu para quem quiser ler. Por isso, elas têm um tom genérico e mais informal do que se fossem uma troca de experiências. É quase como ler Hitchens falar com ele mesmo. E de maneira nenhuma isso é negativo.

Ele parte da questão de “o que é um contestador?”, para repetir várias vezes o que minha professora também dizia: informação é poder. Um contestador não nasce constestador, torna-se. Ninguém precisa estar descontente com tudo, claro, mas se há algo que te incomoda, aprenda sobre. A idéia é simples e Hitchens dedica algumas boas páginas falando sobre isso. Mesmo se você não concorda com alguns dos pontos do autor, como ele mesmo explica, ouvir o contrário também é importante na formação de seu próprio pensamento.

Há ainda muitas e muitas dicas de nomes que ajudaram o próprio autor a desenvolver algumas idéias (ainda que ele próprio diga que ‘autoridades’ nem sempre estão certas). Pode ser uma lista valiosa de futuras leituras aos interessados. São nomes conhecidos como Bertrand Russel, Émile Zola, Aldous Huxley e Freud a alguns não tão famosos como George Dangerfield, Martin du Gard e Anthony Powell. Isso me levou a pensar que seria muito legal se a editora fizesse, ao final do livro, um índice apenas com as obras/autores citados.

Apesar do nível culto do autor, a leitura do livro não exige um dicionário. É perfeitamente simples e objetivo contando com o sarcasmo ferino que Hitchens sempre libera aqui ou ali. Isso tira o tom de “lição de moral” das cartas e parece mais um professor ensinando a um interessado aluno. E é uma aula boa demais.

“Ser um exilado ou um proscrito numa praia remota – muitas mentes fogem aterroziadas e procuram alguma fonte de aconchego. Só posso dizer que o conceito de solidão, exílio e auto-suficiência me encoraja continuamente, e não apenas quando comparado ao horror do Eterno Paternalismo. (E quando confrontado com esta realidade crua pode-se também aprender a tratar seus colegas exilados com mais consideração e respeito. Mas não peçamos o impossível.)”

Vou deixar aqui alguns links interessantes para quem quer saber mais sobre o autor e os debates nos quais se envolveu (apenas as partes dele). Tentei achar links com legendas em português, mas há debates completos sem legenda que chegam a ter mais de duas horas e que também valem a pena pesquisar, até para ouvir as réplicas e tréplicas de ambos os lados.

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