Resenha – Carvão animal
por Juliana Costa Cunha
em 13/12/21

Nota:

“No fim tudo o que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem  você  é.  O  melhor  é  que  o  indivíduo  preserve  os  dentes mais que  a própria dignidade, pois a dignidade não dirá quem você  é,  ou  melhor,  era.  Sua  profissão,  dinheiro,  documentos, memória,  amores não  servirão  para  nada.  Quando  o  corpo carboniza,  os  dentes  preservam  o  indivíduo,  sua  verdadeira história. Aqueles que não possuem dentes se tornam menos que miseráveis.  Tornam – se  apenas  cinzas e  pedações  de  carvão. Nada mais”. (p.09)

Carvão Animal encerra a “saga dos brutos”, trilogia criada por Ana Paula Maia e que tem início com o livro Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – nele estão duas histórias que dão início à saga. A primeira que dá nome ao livro e a segunda intitulada “O trabalho sujo dos outros”. Acho que aqui vale uma dica: embora Carvão Animal tenha sido lançado depois, penso que iniciar a leitura por ele dá mais fôlego ao projeto da autora com a saga.

Em Carvão animal voltamos 10 anos no tempo e na vida das personagens. Aqui encontramos Edgar Wilson em seu primeiro ofício – carvoeiro. Vivendo em condições subumanas e com graves questões de saúde devido ao trabalho insalubre. E é aqui nesse livro que entendemos o que o leva a abater porcos no “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”. É nesse momento que a gente entende a liga que as personagens têm em nas narrativas.

É aqui que conhecemos Ernesto Wesley, bombeiro que tem a missão de salvar vidas do fogo, enquanto ele mesmo corre risco de ser atingido por ele. E Ronivon que trabalha num crematório Colina dos Anjos. Lugar que recebe os mortos do Hospital da cidade, principalmente os indigentes.

A cidade em que estas personagens vivem chama-se Abalurdes. Os corpos que são cremados por Ronivon e seus colegas de trabalho, sendo eles transformados em carvão animal nesse processo, tornam-se fonte de energia para a cidade. Ou seja, Abalurdes só tem energia elétrica graças aos seus mortos “Os vivos de Abalurdes sabem aproveitar bem os seus mortos”.

Este é mais um livro de Ana Paula Maia que me impacta. Não tem a mesma força que o livro anterior, nem tantas cenas chocantes no sentido do detalhamento das mortes e sua crueldade. Mas é um trabalho que vai refletir sobre a efemeridade e a bestialidade da vida; abordando um cotidiano sem perspectivas e sem escapes. Sobre uma relação tão íntima com a morte que faz as personagens não darem importância à ela.

Acho interessante pensar também sobre as questões relacionadas à liberdade e ao absurdo. A simbologia do fogo, marcada fortemente neste livro, enquanto regeneração e nascimento, como analogias à vida humana. Os dentes, são a única coisa que se salvam do fogo. A única forma de se reconhecer um corpo que foi carbonizado. E também de se ter alguma herança na vida visto que algumas personagem revestem seus dentes com ouro, pensando em algum futuro diferente para si ou seus familiares. 

A saga dos brutos nos fala de uma condição de subtração da dignidade, da documentação (alô ENEM 2021!), da memória e dos afetos, nos quais são deixados de lado as características que nos definem enquanto sujeitos e nos asseguram a nossa condição humana.

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