Resenha – Cidade em Chamas
por Poderoso
em 03/08/16

Nota:

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Garth Risk Hallberg causou furor no mundo literário com a notícia de seus 2 milhões de dólares de adiantamento por seu livro de estréia depois de gerar uma guerra entre 10 editoras que queriam publicar a obra. Foi o maior valor já registrado pago a um autor estreante nos Estados Unidos. Hallberg já havia elaborado a história 9 anos antes de apresentá-la a um editor. Levou 5 anos para escrever o calhamaço de mais de 1000 páginas. Esses números todos também acabaram por ajudar a ampliar o interesse pela obra – afinal, um autor iniciante que produz e efetivamente vende uma história como essa é algo raro.

Cidade em chamas tem uma miríade de personagens, todos centrados em dois eixos: giram em torno da família Hamilton Sweeney e também da cidade de Nova York da década de 70. Nesta década, Nova York era o centro de diversas sub-culturas norte-americanas: a libertinagem afetiva, a liberação homossexual, o movimento punk. Tudo isso faz parte do enredo de Hallberg de maneira paupável.

A família Hamilton-Sweeney é o clichê das famílias ricas do mundo: um patriarca viúvo que se casa novamente com uma moça que parece mais interessada em seus negócios do que neles mesmo, uma boa menina – Regan – que segue as regras e trabalha no negócio familiar apesar de não estar feliz com suas circunstâncias e o jovem rebelde de nome aristocrático – William – que abandona tudo para seguir seu sonho de ser artista e viver de música e quadros além de ser livre para namorar quem quiser (um homem negro, para choque geral).

O livro cria o ambiente de mistério logo no começo: Samantha Cicciaro é encontrada por Mercer (namorado de William) no Central Park. A partir daqui, vamos descobrir o que acontece com os personagens que pairam ao redor da família Hamilton-Sweeney: Samantha e seu amigo Charlie que descobrem o mundo das drogas; Richard – o jornalista que tenta fazer um retorno triunfal à sua carreira e escreve um perfil do pai de Samantha e depois vai investigar seu atentado; os músicos que uma vez tocaram com William em uma banda punk que não durou muito; o marido de Regan, Keith, que acaba por cair nos negócios da família e bate de frente ao muro descomunal que era a família; Mercer, o namorado de William que sabe muito pouco do próprio namorado e tenta encontrar uma brecha no mesmo muro que Keith enxerga.

Após este breve resumo, o que vocês verão abaixo são impressões da obra de dois colaboradores do Poderoso.

***

Patricia

A construção dos personagens é bastante detalhada e isso tem dois desdobramentos: primeiro que acaba por arrastar os acontecimentos (uma personagem passa 5-7 páginas na cama pensando sobre sua ressaca) e segundo que não permite ao leitor uma ligação profunda com nenhum dos personagens. Tudo isso cria um fio condutor bem fino entre o trio narrador-leitor-personagem. O narrador não é onipresente e há diversas instâncias em que o leitor fica tão no escuro quanto os personagens sobre os quais lê.

A superficialidade da vida desses personagens, ainda que afundados em seus dramas, é tratada como que um analista que contando a história trágica dessa família em uma mesa de jantar. As mortes, por exemplo, são sempre narradas por outras pessoas primeiro. O que encontramos é um outro personagem que “ficou sabendo da morte de x” como se o morto não fosse agente de sua própria vida. Não estar encarregado da própria vida, aliás, parece um tema comum na obra, enquanto a maioria dos personagens buscam uma redenção vazia.

E podem dizer que a expectativa gerada pelos números absurdos relacionados ao livro tenha alguma influência no quanto estão falando bem dessa obra (afinal, vivemos em um mundo guiado, cada vez mais, pela “hype” de alguma coisa e os livros de youtubers estão aí para provar que conteúdo não é nada comparado à “hype” que se pode criar) mas, de fato, acredito que a qualidade de Hallberg como escritor é clara. A ambição também – poucos autores hoje em dia sequer ousariam lançar uma obra desse tipo, principalmente para sua obra de estréia.

Mas, a gana de escrever algo como uma obra prima acabou criando um mostro que se retroalimenta: descrições e mais descrições e histórias dentro de histórias – 90% dos personagens que vemos no livro têm capítulos dedicados ao seu passado – às vezes sem agregar quase nada para a história principal. Como se alguém tivesse dito a Hallberg que ele só seria um autor respeitado se conseguisse escrever algo com mais de 90 capítulos e 900 páginas. Então o autor se propõe a nos contar cada detalhe sobre cada personagem.

Se a idéia de acrescentar essas questões era ampliar o suspense, o resultado acaba sendo um leitor exausto, esperando algo acontecer de fato. Entre a hora que começamos a ligar os pontos do que está para acontecer até o acontecimento ápice do livro (e uso a palavra acontecimento de maneira vaga), vão-se aí quase 200 páginas.

Tudo isso enquanto cria-se um suspense para um clímax que não se concretiza. O tom quase onírico e filosófico de alguns capítulos em que personagens passam mais tempo discutindo a ação do que efetivamente fazendo algo, quebram ainda mais o ritmo da leitura. Os personagens, ao longo de tantas páginas começam a perder o contorno ao invés de tornarem-se mais definidos enquanto buscam um sentido, ao que parece, para suas próprias vidas que resulta em páginas fracas que tinham potencial para virarem o ponto alto de todo o livro.

Cidade em Chamas é um caso que prova que maior nem sempre significa melhor.

2 doses de café fraco, coado na meia.

Thiago

Garth Risk Hallberg está de parabéns com esta obra. Conseguir se vender tão bem pra editoras em seu primeiro romance é algo simplesmente genial, e isso me fez pensar bastante. Li algumas resenhas de jornais americanos, algumas falando maravilhas, outras analisando esta longa narrativa de maneira séria e com grandes ressalvas. Os jornais e sites brasileiros dedicados a literatura, em sua maioria, fizeram resenhas positivas, mas sinceramente, não sei como. No Poderoso temos a cultura de passar para nossos leitores a real impressão que tivemos sobre o livro lido, então vamos lá.

O problema aqui não é o tamanho do livro, nem ao menos ser o romance de estréia de alguém, ou mesmo ainda o tema, mas sim a expectativa criada pelo mercado antes mesmo do trabalho ser lançado. Assim, por estar longe do esperado, algo que poderia ser mais um livro regular se torna algo ruim. Quanto a narrativa ela é arrastada entre descrições e longas “cenas” que não acrescentam muito para a história. O problemas não está no grande número de personagens que aparecem na trama, Ken Follet, conhecido por seus romances históricos, também faz isso, entretanto há sempre uma relação e profundidade no personagem para a trama.

Falando em trama, temos aqui o ponto que puxa todas as páginas pra baixo, o fio condutor da obra é confuso. Para um livro tão longo o enredo é muito simples e inconsistente. Várias questões são levantadas durante a leitura, por descrições e ações dos personagens que não tem continuidade ou afetam a história de alguma maneira, deixando o leitor perdido. Vejo Cidade em Chamas como um livro de extrema ousadia, que pretendia ser algo grande, e em sua busca por retratar uma Nova York dos anos 70 a história se perdeu.

Penso que as editoras, independente da nacionalidade, mas no caso aqui as americana, buscam a nova grande novela americana. Claro que elas precisam descobrir novos talentos e fazer barulho pra vender seus livros. O barulho foi tanto que o produtor de cinema de Holywood, Scott Rudin (conhecido pelo filme “As horas” e “Frances Ha”), comprou os direitos cinematográficos do livro.

Dou dois cafés também, mas mais pela genialidade de se vender de Garth Risk Hallberg em um mercado tão difícil do que pelo livro.

Boa leitura a todos!!

***

O livro foi enviado pela editora. 

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