Resenha – Como ficar sozinho
por Patricia
em 14/08/13

Nota:

images

Ano passado, tomei conhecimento de Jonathan Franzen com o seu livro Liberdade. A crítica falava bem e ele foi até capa da revista Time, a Oprah escolheu um de seus livros (As Correções) para o seu famoso clube do livro e ele foi presença central na FLIP de 2012. O bafafá era geral e minha curiosidade foi aguçada. Fazia tempo que eu não via um autor receber tanta hype sem escrever um livro que virasse febre adolescente.

Mas Liberdade não embarcou comigo. Terminei o livro e achei muito bom mas não o suficiente para tudo o que estava acontecendo com o autor. Claro, como sempre é importante relembrar, uma avaliação de um livro por leitores amadores vem muito do contexto individual. Por isso, quando encontrei Como ficar sozinho que consiste de uma coletânea de ensaios do autor, decidi tentar de novo esse relacionamento.

1101100823_400

Em Como ficar sozinho, Franzen nos apresenta um pouco dele mesmo – sua cabeça extremamente analítica e racional. É como se o autor estivesse pensando alto e nós pudéssemos ouví-lo.

Apesar de eu não ter gostado de Liberdade, é inegável que Franzen escreve muito bem. Em alguns momentos, ele pode ser um pouco prolixo demais e se arrastar em um assunto que nem chega a ser muito interessante mas a qualidade de sua escrita está ali.

Os assuntos são dos mais variados. O autor fala do sistema carcerário norte americano, da sua visão sobre privacidade, do 11 de setembro, de pessoas que falam ‘eu te amo’ em público e em voz alta o tempo todo (pare, simplesmente, pare!) e etc. Muitos desses tópicos o fazem viajar pela sua própria família e em alguns ensaios ele nos apresenta a sua família de um ponto de vista nem sempre atraente – a mãe carente e o pai que sofria de Alzheimer formam um casal estranho mas que rendem boas reflexões.

Pessoalmente, esses ensaios com um gosto de biografia foram os que menos gostei. Franzen brilha mesmo quando se deixa divagar sobre assuntos diversos revelando uma mente ágil, afiada e extremamente perspicaz para avaliar a sociedade em que vive. Ele parece conseguir distanciar-se razoavelmente de seu meio ambiente para analisá-lo de forma mais imparcial. É realmente interessante ver essas construções.

O penúltimo ensaio é justamente sobre algo que comentei no começo dessa resenha – a escolha do 3o livro de Franzen – As correções – para o Clube do Livro da Oprah que gerou certo desconforto para todos os envolvidos. Franzen comentou em uma entrevista que era interessante que Oprah o tivesse escolhido porque muitos dos livros que ela escolhe são, geralmente, “unidimensionais”. Além disso, ele questionou o sentimentalismo com que teve que cooperar para que a apresentadora pudesse apresentar seu livro. Mas isso foi em 2001 e com o lançamento de Liberdade, eles parecem ter feito as pazes.

Os ensaios finais são feitos para quem quer ser escritor. Ele comenta muito sobre a depressão de escrever, de não escrever, da pressão de criar algo de valor para uma sociedade que valoriza muito pouco e cada vez lê menos, da constante guerra de atenção que as pessoas travam entre a televisão e os livros e etc. Pode soar mais do mesmo mas ele consegue incorporar uma visão de alguém que sente tudo isso no fundo da alma.

Eu percebo que gostei de um autor quando começo a anotar as indicações que ele dá de livros e filmes. E quando Franzen comenta que ele acha que Alice Munro é uma das melhores autoras de ficção, eu imediatamente vou no skoob e atualizo minha lista de “vai ler” e “desejados”.

C0m certeza, o que quer que tenha passado em minha cabeça com Liberdade, sinto que pude ver mais de Franzen e gostei muito do resultado. Já estou com o As correções e será lido o quanto antes. Sorte minha ter tentando de novo ler o autor.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Como ficar sozinho”


 

Comentar