Resenha – Como morrem os pobres e outros ensaios
por Patricia
em 18/03/13

Nota:

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Acho que todos os amantes de livros concordam que ler 1984 é quase necessário – não apenas por ser um clássico, pela previsão certeira de uma sociedade que vive sob regimes desconexos e autoritários (ainda que hoje sejam chamados de democráticos) ou ainda por ser um dos pais do gênero distópico. Orwell trata do tema de maneira conhecedora e, em Como morrem os pobres e outras histórias, descobrimos de onde ele tirou seu conhecimento tão extensivo sobre o homem comum e sua relação com o poder.

Seus primeiros três ensaios nesse livro retratam parte de sua vida como mendigo. A descrição dos albergues e do dia a dia dos mendigos é realmente triste. Para disfarçar o fato de que é um homem estudado, Orwell finge um sotaque cockney (seria o nosso caipira) e sempre que esquece do sotaque as pessoas fazem questão de dizer para ele como deve ser difícil “perder seu estilo de vida”, já que presumem que ele era um homem estudado e rico que perdeu tudo.

Um dos melhores ensaios é, sem dúvida, “A liberdade da imprensa” (que virou prefácio de algumas edições de Revolução dos Bichos) onde o autor comenta sobre a censura que encontrou para publicar essa sua obra prima recebendo de um editor a seguinte resposta:

Mencionei a reação que tive de um importante funcionário do Ministério da Informação no que diz respeito à Revolução dos Bichos. Devo confessar que essa expressão de opinião me deu mesmo o que pensar […] Posso ver agora que ele pode ser considerado algo extremamente imprudente de se publicar no momento atual. Se a fábula se dirigisse a ditadores e ditaduras em geral, então a publicação não teria problema, mas ela segue, como vejo agora, de forma tão completa a ascensão dos soviéticos russos e seus dois ditadores que só pode se aplicar à Rússia, com a exclusão de outras ditaduras. Outra coisa: seria menos ofensivo se a casta dominante na fábula não fosse a dos porcos. Acho que a escolha dos porcos para casta dirigente sem dúvida ofenderá muita gente e, em particular, quem é um pouco suscetível, como os russos sem dúvida são.”

Seus ensaios sobre o período pós guerra também são muito bons. Eles nos ajudam a conhecer pontos que normalmente não seriam considerados por quem não viveu naquela época. Ele comenta, por exemplo, sobre o período em que os judeus foram libertados dos campos de concentração e alguns destinaram-se a caçar nazistas. O que poderia ser considerado para muitos como “justo”, para Orwell era apenas uma demonstração do sentimento de ódio que começou a guerra. É uma análise interessante de um inglês que parece ser um tanto quanto liberal: “A sociedade boa é aquela em que os seres humanos são iguais e em que cooperam uns com os outros de bom grado e não por medo ou compulsão econômica.”

Como morrem os pobres e outros ensaios é centrado nos ensaios de Orwell sobre a vida inglesa e política e, para interessados nesses assuntos (como eu), é um prato cheio.

Em síntese, o livro é bom e serve para nos mostrar que nenhum dos grandes livros escritos por Orwell são resultado de um simples ócio ou simples vontade de escrever e, sim, de uma mente extremamente observadora e analítica que fazia questão de falar sobre qualquer coisa que achasse relevante.  Mais ainda, uma mente que formava uma opinião sobre os assuntos que lhe interessavam e não temia expô-las.

Idéias bem embasadas tendem a render livros excelentes e, se você ainda não leu nada de Orwell, comece por A revolução dos bichos que, certamente, é nada menos que excepcional.

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2 Comentários em “Resenha – Como morrem os pobres e outros ensaios”


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Aline em 24.05.2013 às 22:22 Responder

Muito boa a sua resenha, já li a Revolução dos Bichos e 1984, agora procuro outros livros de Orwell. Ele é incrível e me deu vontade de saber como era este. Parabéns pelo blog.

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Paty em 24.05.2013 às 23:15 Responder

Oi Aline, obrigada pela visita. E sim, o Orwell é sensacional…ainda não li nada dele que não me desse vontade de ler cada vez mais. Depois de ler esse, conte o que achou. 😉

Bjos.


 

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