Resenha – Contra o Amor: Uma Polêmica
por Gabriel
em 30/11/15

Nota:

Contra o Amor

Contra o Amor, de Laura Kipnis, me foi recomendado já há alguns anos em textos de pessoas que defendiam formas não-monogâmicas de amor. Foi com a expectativa de conhecer mais esse ponto de vista a respeito dos relacionamentos humanos em meio ao meu projeto de leitura de mulheres que resolvi desbravar as páginas desse ensaio.

O tema deste livro é o amor. Mas não o amor como sentimento e sim o amor como esta instituição social que vivemos no Ocidente: a monogamia, que tem como principal meio e fim o casamento. É esta instituição que Kipnis critica, com um adendo importante logo ao início da obra: existem sim diversas benesses em abraçar este meio de vida, mas estas não são o objeto deste ensaio. O livro se dedica justamente a instaurar uma “polêmica”, segundo a autora, e isso significa destacar e analisar os problemas desta instituição.

Kipnis começa bem, traçando alguns paralelos interessantes e usando muita ironia para introduzir o tópico da discussão sobre relacionamentos. Isso é importante, pois a grande maioria das pessoas passa toda uma vida sem sequer questionar esse tipo de coisa: é simplesmente a única verdade possível e não deve ser levantada nenhuma objeção. Laura derruba essa premissa e começa a explicar porque o amor monogâmico não deve ser considerado uma tendência natural do ser humano.

A autora brilha em alguns trechos, como quando explica que convenções sociais são construções (usando uma anedota que envolve dejetos humanos e mesas de jantar) e que essas construções geralmente servem a propósitos conservadores (de manter a estrutura atual intocada e privilégios em seu lugar). Se destaca, também, em seu genial paralelo entre o amor monogâmico contemporâneo e a ética do trabalho. Frases como essa pipocam durante esse trecho do livro:

Afinal de contas, o progresso tecnológico poderia reduzir o trabalho necessário a um mínimo, se isto tivesse sido um dia considerado uma meta social – se a meta do progresso fosse nos libertar da necessidade ao invés de fazer alguns poucos selecionados maravilhosamente ricos enquanto o resto sem sorte dá duro.

Se utilizando deste pano de fundo, ela passa a apresentar o adultério como uma atividade revolucionária, e destaca: o problema é que o adultério não pode ser considerado uma fuga do amor monogâmico, pois geralmente busca exatamente a mesma coisa – substituir um relacionamento monogâmico com problemas por outro relacionamento monogâmico “perfeito”. E então diz que, por isso, o adultério não deve ser visto como a grande alternativa ao amor monogâmico. OK? OK. A ideia é complexa, mas até aqui a construção teórica de Kipnis e sua prosa são impecáveis. O leitor está empolgado, curioso. E aí algo acontece.

Simplesmente Kipnis parece se esquecer do que disse sobre o adultério algumas páginas adiante. Ao analisar as pessoas que o praticam, ela deixa claro que não se preocupa tanto com o fato de que esta “atitude revolucionária” seja na verdade uma repetição dos modos e problemas do próprio amor monogâmico que ela critica. E se põe a fazer uma análise elogiosa do adultério que, sem nenhum julgamento moral, parece muito pouco para encerrar uma obra que se inicia propondo tanto.

Contra o Amor: Uma Polêmica é uma bela introdução ao tema da discussão das formas de relacionamento contemporâneas e ao fato de que ninguém é obrigado a seguir essas convenções (algumas pessoas são, mas essa é uma outra conversa). A relação traçada entre a ética do amor e a ética do trabalho é genial e Kipnis escreve muito bem – além disso, suas fontes são bem selecionadas e não há escorregões teóricos graves. Porém, quando se põe a discutir o adultério e ignora todo o restante do espectro dessas discussões, a autora desperdiça uma grande chance.

É claro que dizer isso hoje, 12 anos depois do livro ter sido escrito, pode ser simplista. Mas é o que me parece, do alto de meu ponto de vista “2015”. O livro ainda é com certeza recomendadíssimo a quem se vê questionando às vezes essas verdades absolutas sobre relacionamentos. Mas para quem chegar ao final com a mesma impressão que eu, talvez valha a pena ler a Prisão Monogamia de Alex Castro (que “bebe” dos conceitos de Kipnis) e assistir a documentários como Poliamor (que é curto, tem seus problemas, mas mostra que há muito mais tons de cinza nesta conversa).

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2 Comentários em “Resenha – Contra o Amor: Uma Polêmica”


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flavio dos santos em 18.02.2017 às 23:31 Responder

iNTERESSANTE,É BOM CONHECERMOS UM POUCO SOBRE O RELACIONAMENTO HUMANAO.
PARABENS

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Pedro Augusto em 28.02.2018 às 16:37 Responder

Tudo que aborda relacionamento eu gosto de ver, afinal e sempre bom aprender cada vez mais como e o ser humano.


 

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