Resenha – Coral e outros poemas
por Juliana Costa Cunha
em 30/07/18

Nota:

 

Sophia de Mello Breyner Andresen é poetisa portuguesa e tem o mar como um dos elementos centrais de sua lírica. Eu, até então, tinha tido acesso à sua poesia através de internet e de dois livros infantis – A Fada Oriana e Menina do mar, publicados no Brasil. Ambos lindos e que deve agradar às pessoas pequenas e grandes, como foi o meu caso. Vale ressaltar que em Portugal seus livros infantis são sempre indicados nas escolas onde Andresen é leitura do dia a dia.

Por lá, toda sua obra poética foi reunida no volume Obra Poética (Assírio & Alvim, 2015). Além de poesias e livros infantis, ela também escreveu contos e ensaios. Tem, portanto, uma obra vasta e diversa, que a fez ser a primeira mulher ganhadora do prêmio Camões, em 1999, e também ganhar o Reina Sofía, em 2004.

Poema azul

O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu

Em Coral e outros poemas (Companhia da Letras), encontramos a concretude e o mistério que perpassam sua poética.  A organização e também a introdução do livro é do poeta Eucanaã Ferraz, que nos apresenta a trajetória desta poetisa tão singular e combativa. Inclusive, relata a aproximação dela com o Brasil e sua poesia. Ela conheceu o poeta Recifense João Cabral de Melo Neto em 1950 e, em 1966, numa viagem ao Brasil, que passou a ter poemas referentes ao Brasil e seus poetas – Muliro Mendes, Manoel Bandeira e Helena Lanari, entre outros.

Na introdução deste livro, nos deparamos com os aspectos objetivos dos versos de Andresen, que são carregados de substantivos concretos. Tal fato, inclusive, elogiado por João Cabral que dizia que a poesia de Sophia era concreta, com uma forma clara e objetiva de escrever, mesmo fazendo uso do mistério e da fantasia.  Em sua obra há também elementos da cultura grega, para onde a autora foi pela primeira vez em 1963, tendo impacto direto e decisivo sobre sua obra. Indico assistir ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=s0MhPfK1OjY que traz muitas referências sobre esta e outras questões.

 O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além di tempo

Como se a maré nunca as levasse

Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Pela grandeza da imensidão da alma

Pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…

Há mulheres que são maré em noites de tarde…

E calma

Outro tema abordado por Sophia em suas poesias é a política. Mais especificamente a política em Portugal na época da ditadura Salazarista. Entre 1960 e 1970, sua poesia ficou marcada por versos combativos, de protesto, conclamando ao fim da ditadura e ao poder popular. Entendendo que a poesia era abstrata demais para o momento, em 1975, elegeu-se deputada pelo Partido Socialista Português, oposição ferrenha ao Estado Novo daquele país.

Exílio
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Poesia é um gênero literário que para mim nunca termina quando termina o livro. É difícil tirar o livro da cabeceira. Tenho vários que ao longo dos dias, meses e anos vou deixando de fácil acesso para aquele momento de pegar um deles, abrir aleatoriamente e ler um ou dois poemas. É fato que Coral e outros poemas vai entrar nessa pilha e percurso.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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