Resenha – Cuba de Fidel
por Gabriel
em 06/12/14

Nota:

Cuba de Fidel

A ilha de Cuba tem andado em evidência já a um tempo no Brasil, pelos motivos errados: incautos distribuídos pelas caixas de comentários da internet e pelas revistas semanais em queda livre de audiência dizem que o país está “se tornando Cuba”. Isso nunca foi verdade e este livro ajuda a entender esse ponto.

Cuba de Fidel é um relato pessoal do autor, Ignácio de Loyola Brandão. O livro descreve a visita que o autor fez à ilha caribenha na década de 70, a pedido de uma associação de escritores local. Acompanhado de Chico Buarque, Marieta Severo e outros nomes do cenário cultural, Brandão foi recepcionado em Havana e registrou o que viu neste livro.

A obra é organizada como um ensaio, com o autor destrinchando diferentes tópicos de cada vez. A revolução cubana tinha se concluído em 1959, sendo portanto um fato recente para a história do país. Muitas das coisas que a revolução prometera estavam se mostrando verdades; outras ainda eram promessas que mais tarde se provariam não cumpridas. É interessante ler o livro sobre essa ótica, como alguém que tem hoje 40 anos de distanciamento para analisar o que é dito.

Alguns poucos detalhes da obra acabam se perdendo com o tempo decorrido. Muitas vezes o autor fala em valores monetários para demonstrar como o custo de vida é mais alto ou mais baixo (em relação ao Brasil) em determinados tópicos. Como os valores são descritos em cruzeiros, é impossível fazer uma conversão satisfatória enquanto se lê. Mas isso não impede a apreciação do texto, que não depende disso. A experiência de Brandão, apesar de breve e um tanto superficial, mostra bem as expectativas que se depositavam no regime da ilha e as contradições presentes na cabeça de um brasileiro que vivia, enquanto isso, uma outra ditadura em seu país. Uma ditadura paradoxalmente bem diferente e bem parecida.

O texto é agradável e de leitura rápida; com poucas páginas, é possível finalizar a leitura de Cuba de Fidel em apenas algumas viagens de metrô (é assim que eu contabilizo, pelo menos). Ao final da leitura, é natural sair em busca de mais referências para atualizar alguns dos pontos: o livro é um exemplar de seu tempo e tem que ser lido como tal. Para conhecer de fato a realidade da ilha e como as coisas acontecem lá hoje, é preciso buscar referências mais atuais. Não deixa de ser interessante, no entanto, ler passagens como a que descreve o interesse do governo em formar médicos o bastante para criar programas de intercâmbio desses profissionais, o que é um óbvio embrião dos programas atuais de “exportação” da medicina cubana. Há outros trechos que também despertam a mesma sensação de já termos visto o fim dessa história.

Cuba de Fidel é leitura interessantíssima para quem quer passar por essa cortina nebulosa de informações sobre a ilha e entender um pouco o que realmente aconteceu por lá nos últimos 60 anos. No caso, é uma excelente oportunidade de ver como as coisas estavam na década de 70, mais ou menos o meio do caminho até a abertura atual e o início do bloqueio americano, que tanta coisa mudou nas expectativas dos revolucionários. Boa leitura.

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