Resenha – Da Violência
por Gabriel
em 02/11/13

Nota:

Da ViolênciaHannah Arendt é uma conhecida filósofa política nascida na Alemanha e radicada nos Estados Unidos. Tendo nascido em 1906 e morrido em 1975, acompanhou as duas Grandes Guerras, sucessivas mudanças de regime e alterações de poder na Alemanha, além das agitações de 1968. No Brasil, por exemplo, vivíamos a escalada da repressão do regime militar, que aprovou o Ato Institucional Número 5 e passou de vez à linha dura.

Da Violência, publicado atualmente com o nome Sobre a Violência, é um ensaio elaborado exatamente na época de 1968, sob a influência de agitações de alcance mundial, de revoltas na França, disputas raciais nos Estados Unidos, entre outras. E a primeira característica gritante do texto é sua semelhança absurda com as análises da situação atual do mundo (Brasil inclusive, após as manifestações de junho).

As manifestações de 1968, de maneira geral, não apontavam um caminho alternativo, mas sim a falência do caminho atual por onde a sociedade seguia. Uma população que não se sentia representada pelos partidos, um Ocidente que quer coisas diferentes mas levanta a voz junto às demandas de outras culturas, o surgimento e destaque de ações mais violentas, tudo isso acontece neste ano e guarda clara semelhança com o ano de 2013.

E o que Arendt faz neste ensaio é passear pelas origens da violência como expressão política, pela diferença entre poder e violência (na visão da filósofa, coisas muito distintas e não tão intrinsecamente ligadas como normalmente pensamos) e pela nova dinâmica de um mundo que recentemente havia testemunhado o poderio da bomba atômica e agora vivia sob o medo de uma guerra nuclear.

Os movimentos de não violência são também analisados, especialmente aquele guiado por Gandhi na Índia, emblemático para a ideia de resistência não violenta.

Muitas ideias da filósofa são polêmicas e gerariam muita discussão se expressas hoje, como a posição de que, em uma multidão, a maioria que assiste a uma minoria violenta sem nada faze-lo simplesmente não tem vontade de se opor a isso, ou seja, concorda. Não dá para ler esse trecho sem lembrar dos black blocs que frequentam as manifestações do mundo todo nos anos 2000 e sem pensar sobre as reações de todos a essas ações.

O texto de Hannah Arendt não é simples ou de leitura suave, apesar de ter poucas páginas (em torno de 50). Porém, alguns pensamentos precisavam ser mais divulgados em tempos de tantas mudanças políticas: por exemplo, quando a filósofa diz que a principal razão para a violência em protestos seria desnudar a hipocrisia de um governo que finge governar sem o uso da violência. Nada mais atual (e propenso a deflagrar discussões intermináveis).

Da Violência é incrível pela quantidade de acertos sobre a situação atual, mas é um texto filosófico importantíssimo e polêmico por si só. Com certeza uma recomendação imprescindível para os amantes da política e dos rumos por onde anda a sociedade.

 

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2 Comentários em “Resenha – Da Violência”


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Paty em 02.11.2013 às 18:26 Responder

Triste pensar que pouco parece ter mudado. A análise dela casar tão bem com o que vivemos hoje, sinceramente, me assusta.
🙂

Mas enfim…ótima resenha. Vou procurar esse para ler.

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Gabriel em 03.11.2013 às 11:49 Responder

Acho que você vai curtir, Paty… a leitura faz pensar bastante. Mas a impressão principal acho que é essa mesmo: faz bem uns 50 anos que andamos de lado nas causas sociais e direitos humanos e afins =/


 

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