Resenha – Damas da lua
por Patricia
em 25/01/21

Nota:

Damas da lua acompanha a historia de três irmãs em Alwafi, cidade de Omã: Mayya, Assmá e Khawla.

Seguindo os costumes muçulmanos, a mulher tem o trabalho principal de se casar. Ela é criada para isso e, até se casar, não pode participar de certos rituais por ser vista como uma menina. Uma mulher de verdade, é uma mulher casada. Pode ser aos 16 ou aos 26 anos. E claro, quem decide quando ela está pronta para casar são os pais.

A história começa quando Abdallah, filho do comerciante, pede a mão de Mayya em casamento e seus pais decidem que está mesmo na hora dela casar. Órfão de mãe, Abdallah cresceu com um pai duro, que exigia uma conduta quase adulta mesmo de uma criança. Para encontrar um pouco de afeto, o menino se apegou à escrava Zarifa – descendente de africanos sequestrados e vendidos no Oriente Médio. Para o resto da vida, ele vai buscar a aprovação do pai, até em sonho, e dificilmente a encontrará em algum lugar. Além disso, ele parece se remoer intensamente da fonte de fortuna da família: em sua árvore genealógica há vendedores de armas e, seu pai, um comerciante de escravos.

Mayya rapidamente engravida e nasce sua primeira filha, que ela chama de London para desprezo completo das mulheres de Alawafi. Assmá se interessa por livros, apesar de ter apenas livros mais religiosos e alguns romances bobos para ler. Ela sonha em estudar e se casa com Khálid, que a apoia em seus estudos mas apenas porque acredita que ter uma mulher estudada lhe dá mais status.

Incentivou-a a desenvolver seu gosto pela leitura e, depois de ter obtido o diploma de professora com distinção, apoiou-a para trabalhar fora de casa, pois a realização de sua mulher serviria para elevar sua própria condição social e, ainda, confirmaria que suas escolhas eram acertadas. Era uma esposa que servia para se exibir, dando os últimos toques em sua aceitação social. Uma esposa livre para girar, porém dentro dos limites de sua orbita, não fora dela. (pág. 189)

Khawla é pedida em casamento mas ameaça se matar se os pais aceitarem. Ela está esperando seu primo que vive há 5 anos no Canadá para onde foi mandado para estudar. Quando o primo retorna, eles se casam mas seu conto de fadas não é bem como ela imaginava.

O livro não segue uma ordem cronológica e vai e volta no tempo para nos dar mais um pouco de contexto para alguns personagens. Em vez de criar uma saga família em uma linha do tempo contínua, temos um impacto real de não saber o que nos espera.

Com os pontos de vista mais íntimo de cada personagem, Alharthi reforça a máxima de que as histórias contadas pelas pessoas nem sempre são as mesmas histórias que conhecemos intimamente além de demonstrar o poder da memória e o recorte que cada um cria em sua própria mitologia.

Alharthi escreveu o livro em 2009, mas só foi traduzido para inglês em 2019, tornado-se a primeira autora de Omã a ser traduzida e a primeira a levar o Man Booker International. No Brasil, foi traduzido direto do árabe em um trabalho excelente de Safa Jubran que explica em nota que a autora escreveu a maioria dos diálogos em “árabe coloquial omanense.”

Um livro sensível e de leitura fácil e rápida, ainda que profundo, sobre casamento, a condição da mulher e nossos desejos mais intensos.

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