Resenha – Dano Colateral
por Bruno Lisboa
em 09/12/21

Nota:

No domingo de 7 de abril de 2019 a mídia tradicional trouxe à tona uma notícia aterradora, mas que, infelizmente, é muito comum no Brasil. Na época militares do Exército dispararam mais de oitenta tiros contra o carro onde estavam o músico Evaldo Rosa e sua família. Evaldo morreu no local. O catador de recicláveis, Luciano Macedo, que tentou socorrer a família, também foi atingido e morreu no hospital dias depois. Esta desastrosa ação foi mais uma, entre tantos equívocos cometidos pela ala militar brasileira desde que a mesma começou a agir / interferir dentro do território nacional, ocupando, por vezes, o papel que seria destinado à polícia militar.

Escrito com doses de maestria pela jornalista Natália Viana (co-fundadora da Agência Pública, um dos melhores grupos de jornalismo investigativo do país) o livro traz à tona uma minuciosa investigação a respeito de como a ala militar foi, de forma gradativa, se infiltrando em questões ligadas à política nacional, ao ponto de, hoje, estar completamente envolvida com o governo federal na era Bolsonaro.

Como bem aponta Viana, desde 2004 (no início da era Lula), a ação do exército começara a se tornar parte do ideário nacional como nunca se vira desde a era da democratização e o fim da ditadura. O ponto de transição foi a partir da intervenção militar brasileira no Haiti que perduraria até 2017. E foi a partir da expertise adquiria no país da América Central que começaram a imperar no Brasil as Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), nas quais o exército começaria a coordenar ações em complexos cariocas, como o da Maré e do Alemão. Mas o que na teoria poderia ser a garantia de que pacificação das favelas, na prática se tornou um exercício desastroso que culminou, por diversas vezes, com a vidas de inocentes que foram assassinados devido a erros de operação.

De maneira corajosa, a autora se envolve diretamente com a pesquisa / reportagem e, para cada vida ceifada, faz dela um retrato pungente de quais foram os danos colaterais (termo usado pelo exército para a morte acidental de inocentes durante operações) que as ações militares em operações de segurança pública de civis trouxeram para a nossa sociedade. Erros estes que, aliás, raramente resultam em penas para aqueles o cometeram já que a Justiça Militar, que geralmente julga estes casos, costuma ser conivente.

De modo geral Dano Colateral ajuda a entender o Brasil da era Bolsonaro, como esse cenário vem sendo construído de maneira sorrateira há tempos e aborda a periculosidade de estarmos sendo governados, diretamente, pela ala não democrática do exército e o grau de periculosidade desta iniciativa para a sociedade civil. E por mais que não tenhamos soluções concretas para o momento, a obra consegue mostrar de forma efetiva que o presente / futuro do nosso país é cheio de passado e que para sair dessa situação será um longo percurso.

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