Resenha de Quadrinhos – A Liga Extraordinária Século: 1910
por Gabriel
em 23/08/14

Nota:

A Liga Extraordinária Século: 1910

Os incensados Alan Moore e Kevin O’Neill atacam novamente com a sua Liga Extraordinária. Século: 1910 é o terceiro volume de aventuras do grupo, já resenhados anteriormente aqui e aqui.

Neste volume a Liga tem sérias mudanças em sua composição, já que as primeiras aventuras se passam em 1898. Porém, algumas das mudanças do tempo são impedidas por um malabarismo no roteiro, que sinceramente não engoli. No começo da HQ, existe um “Arquivo”, que nada mais é do que uma cronologia dos fatos anteriores. Neste arquivo, somos informados de que Allan Quatermain e Mina Murray encontraram a “Chama da Vida” em Kor (de um livro de H. Rider Haggard) e são agora imortais. Além disso, Quatermain está também rejuvenescido. Essa manobra dá nova vida ao personagem, que já era idoso, e permite que os dois permaneçam pelo restante dos arcos. Mas é a primeira de uma série de “gambiarras” que me decepcionaram bastante nesse terceiro volume.

A nova Liga é formada por Mina Murray (do Drácula de Bram Stoker), Allan Quatermain (das Minas do Rei Salomão), Sir Thomas Carnacki (de Carnacki, o Caçador de Fantasmas), Sir Arthur James Raffles (de O Ladrão Amador) e o Sr./Sra. Orlando (de Orlando, de Virginia Woolf). Com exceção de Virginia Woolf, confesso nunca ter ouvido os títulos e nomes de autores das demais obras adicionadas, o que começa a tirar um pouco o brilho da ideia original – referências ricas e claras adicionando camadas à história.

O motivo que leva esse grupo a se unir é um sonho de Carnacki que parece indicar que uma sociedade secreta planeja dar a luz a uma espécie de anticristo. Em paralelo à história principal, somos apresentados à história da herdeira de um famoso Capitão conhecido de edições anteriores – e este enredo é muito mais cativante e interessante até do que a trama principal, se entrelaçando com uma boa solução ao final da HQ.

Este volume da Liga não tem a mesma arte estonteante dos anteriores. O’Neill ainda é um ótimo desenhista, mas não há mais aquelas panorâmicas que impressionavam ou as cenas extremamente detalhadas. Começa a transparecer o que parece preguiça de retratar o mundo da Liga Extraordinária, um cenário de Londres do começo do século 20 com pitadas de ficção científica.

No roteiro, as referências também ficam um pouco mais difíceis, mas se mantêm interessantes. Estão lá Oliver Haddo, personagem do autor Somerset Maugham inspirado no famoso mago Aleister Crowley; Jack, o Estripador (de volta após sua primeira onda de crimes); Simon Iff (detetive criado pelo próprio Aleister Crowley); o Duque Próspero (de William Shakespeare); o 14o. Conde de Gurney (de um filme obscuro de Peter O’Toole), entre outros. As várias referências ocultistas se devem à temática do volume.

Século: 1910 mantém o grande charme da Liga, ao trazer diversas referências; mas, para quem não é exímio conhecedor da literatura inglesa do início do século 20 (e do ocultismo), muitas delas passam despercebidas e pedem uma consulta posterior (como eu fiz). Mas não deixa de ser interessante procurar e ficar sabendo de coisas inusitadas como o supracitado filme de Peter O’Toole (que, pela descrição, é bem peculiar).

Por outro lado, este volume da HQ parece um pouco tirado do nada. A história da imortalidade de Murray e Quatermain não se encaixa bem, assim como a relação a 3 que eles agora mantêm com Orlando. Mina, particularmente, é um personagem que mudou totalmente e reflete agora uma mulher mais fútil e menos decidida e líder. Algumas passagens parecem extremamente desnecessárias e parecem preenchimento de espaços vazios no roteiro. Enfim, não é o trabalho mais brilhante de Moore, que desta vez nos entrega um roteiro arrastado e cujo grande momento é realmente a história da filha do capitão (que ainda assim, não é de muita originalidade). Ainda mantém o nome, mas a queda entre o segundo volume e este é grande. Não é mais tão extraordinária.

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