Resenha de Quadrinhos – Grama
por Patricia
em 14/09/20

Nota:

⛔ Gatilho: violência sexual

A Segunda Guerra Sino-Japonesa começou em 1937. O Japão há anos expandia sua política imperialista na região para acessar comida, trabalhadores barato e recursos naturais. Desde 1910, o país já ocupava a Coréia (na época, um país só).

Ali, o que havia era um intenso regime de terror que apenas piorou com a guerra. Coreanos foram obrigados a usar nomes japoneses, falar japonês e a seguir as crenças religiosas japonesas. Coreanos trabalhavam como escravos: os homens com a terra e as mulheres nas chamadas “casas de conforto”.

“Grama” sobre uma mulher que trabalhou em uma dessas casas.

Ok-Sun Lee tinha 13 anos e seu sonho era ir para a escola como as outras meninas do vilarejo. Porém, com cinco filhos e vivendo em uma pobreza constante, isso não era possível. Lee conta sobre sua infância pobre e a busca incessante por comida em períodos em que a família ficava dias sem comer.

É aqui que ela descobre que sua mãe a vendeu como “filha adotiva” para um casal que não tinha filhos. Ali, a mãe dizia que ela não passaria fome e poderia ir para a escola. Porém, ela se tornou uma pequena escrava do casal trabalhando no restaurante da família. Quando viram que ela era indomável, a venderam novamente. Aos 15 anos, Lee chegou a sua primeira “casa de conforto”.

Essas “casas” eram bordéis em que meninas de 10 a 20 anos “serviam aos soldados japoneses”. Elas poderiam chegar ali de várias formas: algumas foram vendidas pela família, outras foram enganadas com oportunidades de trabalho e algumas, como Lee, foram raptadas e levadas para lá.

Conhecemos essa história contada pela própria Lee, agora com 90 anos, que é visitada pela autora em uma casa de repouso – uma casa criada para essas mulheres que, mais tarde, também foram rejeitadas pela família. É por meio dessa história que descobrimos o que não foi classificado como crime de guerra até quase a década de 90. A estimativa é que em torno de 200.000 mulheres de vários países pobres da região sob o jugo japonês tenham tido esse destino.

Lee era tão jovem e desconhecia tanto do mundo que, quando sua primeira menstruação acontece, ela acha que pegou alguma doença e vai morrer. É uma cena ao mesmo tempo que nos mostra a inocência de uma criança e rapidamente reforça o horror que estamos presenciando.

Lee dizia que, em um fim de semana, podia servir de 30 a 40 soldados. As meninas tinham pouca escolha sobre horário ou quem serviam. Ela é, atualmente, uma das principais ativistas coreanas que exigem reparação do governo japonês.

***

O título da HQ vem da comparação da autora dessas mulheres com a grama: são pisoteadas diariamente, mas seguem ali e crescem. A analogia é bonita. Mas não apaga o peso da história em si. Não consigo imagem uma metáfora poética que apague o gosto ruim que fica quando conhecemos uma história dessas. O que, claro, prova que o objetivo da autora foi alcançado.

A HQ é toda preta e branca com traços muito bonitos. A edição da Pipoca e Nanquim, traduzida diretamente do coreano, está belíssima. E há momentos em que a autora nos transmite o peso da história: quando Lee conta sobre a primeira vez que foi estuprada, temos quadros escurecidos nas páginas seguintes. Sempre me lembro de Svetlana Aleksievitch em “A Guerra não tem rosto de mulher” quando diz que temos que ser testemunhas de histórias de horror, principalmente aquelas que acontecem com quem tende a ser calado ou ocultado pelo tempo.

“Grama” uma HQ de leitura rápida, bem escrita e com a história bem conduzida. Merecedora dos diversos prêmios e indicações que recebeu desde que foi lançada em 2017.

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