Resenha de Quadrinhos – O Dobro de Cinco
por Gabriel
em 07/06/14

Nota:

O Dobro de Cinco

 

No mês dos nacionais, resolvi consertar uma falha de caráter pessoal e conhecer o trabalho de Lourenço Mutarelli, um quadrinista brasileiro renomado e conhecido por seu estilo próprio.

O Dobro de Cinco, primeira parte de uma trilogia publicada pela Devir Editora em formato de “graphic novel”, é uma HQ em preto e branco, com seções que se dividem a cada novo personagem (ou personagens) introduzido na história. Para ilustrar as trocas de seção, é usada uma carta de tarô, que se relaciona com o conteúdo da HQ.

O traço de Mutarelli lembra muito Will Eisner, com personagens caricatos e o uso do preto e branco não como limitação, mas como característica da sua arte. Apesar da proximidade de estilos, o brasileiro tem seus diferenciais: utiliza, por exemplo, boas doses de bizarro ao construir personagens que lembram filmes de Tim Burton. Seus desenhos também trazem algo de amador, no bom sentido; uma aura de algo feito com qualidade sem perder a legitimidade. Em alguns momentos, tive a impressão de estar olhando para um folheto de show de punk rock (o que, para mim, é um elogio).

O roteiro da HQ é original e interessante, ainda que parta de premissas um tanto batidas na ficção. Vemos um detetive particular, velho e gordo (bem velho e bem gordo), receber a visita de um homem que se diz filho de um famoso rico. O objetivo do homem é encontrar uma pessoa em especial, um mágico que se aposentou há muito tempo. Esta busca leva o detetive a um circo desativado (porém não abandonado) em uma cidade do interior. Este é outro traço interessante da obra de Mutarelli, que reforça a impressão de ver um mundo paralelo: as cidades e localidades misturam ares de interior de São Paulo com características da própria capital paulista, enquanto apresentam nomes em espanhol ou até mesmo em inglês.

Diomedes, o detetive que faz as vezes de personagem principal, é uma atração à parte; o desenho do personagem é bizarro, cheio de expressões caricatas, e sua vida e atitudes são bem peculiares. Enquanto sua busca pelo mágico se intensifica, sua vida pessoal entra em crise e sua missão se cruza com interesses de terceiros. O final da HQ é inesperado e revela a criatividade do autor.

O Dobro de Cinco é um ótimo exemplar de criação brasileira original, que apesar de ter um conteúdo rico é também possível de ser lida em pouco tempo de uma tarde. A ambientação e o clima são únicos do autor, o que levou artistas brasileiros a tentarem o desenvolvimento de um filme, ainda não produzido. Fiquem com o pequeno trecho que foi feito e tenham ideia do que é esta obra. Boa leitura.

PS: Procurem a participação especial de Tintin e os irmãos Dupont no quadrinho. Um pequeno agrado do autor aos fãs do personagem belga.

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