Resenha – Debaixo do vulcão
por Patricia
em 19/10/21

Nota:

Debaixo do vulcão” foi publicado em 1947, está no top 15 de melhores romances do século XX elaborado pela Modern Library e Lowry foi comparado a Faulkner, James Joyce e Joseph Conrad. Este foi seu segundo e último romance, levando quase 10 anos para ficar pronto.

A história acompanha Geoffrey Firmin, um ex-cônsul britânico morando na cidade de Quauhnahuac, no México. Firmin tem a fama de ser alcoólatra e, na cidade, deixava a impressão de viver em “contínuo terror por sua vida”. A cidade inteira parecia saber da vida do cônsul que foi abandonado por sua mulher, Yvonne, e andava pela cidade enchendo a cara. O ano é 1939 e a Inglaterra e o México têm uma relação diplomática difícil. A Alemanha se reorganiza para uma nova guerra e o mundo está cada vez mais instável.

O livro todo é narrado em um dia – o Dia dos Mortos – similar (em parte) ao nosso Dia de Finados. Porém, no México, normalmente o dia é celebrado com festas e danças na rua. Yvonne retorna a México neste dia, no período da manhã, depois de um ano fora. Assim como Hugh, irmão de Geoffrey. Cada capítulo do livro, então, corresponde a uma das 12 horas em que acompanharemos o cônsul neste dia fatídico.

Acho que sei muito sobre sofrimento físico. Mas este é o pior de todos, sentir a alma morrendo. Me pergunto se é porque esta noite minha alma realmente morreu que sinto no momento algo como paz.

As partes contadas do ponto de vista de Firmin são confusas e nebulosas. Sabemos que ele está bebendo porque sua confusão mental é repassada ao leitor e, muitas vezes, não temos ideia do que acontece ao redor. Em uma cena, ele acorda no banheiro sem saber como chegou ali. Em outros trechos, há repetições constantes enquanto ele tenta controlar sua própria mente e sua mão que treme constantemente. Lowry consegue transportar bem a sensação de destacamento da realidade. Isso está acontecendo de verdade ou Firmin se perdeu completamente?

Firmin é o ponto focal da história mas temos, no fim, três personagens caóticos e frustrados. Hugh queria ser um artista famoso, mas nunca chegou a lugar nenhum. Yvonne queria ser atriz, mas também não conseguiu concretizar seus sonhos. E Firmin pensava em parar de beber, mas…

Como representam horas inteiras e às vezes contém os devaneios alucinados de um bêbado, os capítulos são longos e podem ser confusos e arrastados. Há muitas cenas que servem de prenúncio do que vai acontecer. Na hora/capítulo 10, uma tempestade se arma bem quando Geoffrey confronta Yvonne e Hugh pelo caso que tiveram. Na 11a hora, urubus aparecem. Tudo parece caminhar para um desfecho intenso.

Considerando que Lowry morou no México, casou-se com uma atriz desconhecida e lutou a vida toda contra o alcoolismo (que eventualmente o matou), o livro também é considerado uma forma de presságio – talvez o autor dizendo a si mesmo o que aconteceria se a bebida continuasse controlando sua vida.

Debaixo do vulcão” é uma bela tragédia sobre um homem sem redenção lidando com um inferno pessoal que está pronto para entrar em ebulição.

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O livro foi disponibilizado pela editora.

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