Resenha – Degenerado
por Juliana Costa Cunha
em 21/10/21

Nota:

Degenerado é uma HQ lançada pela Editora Nemo. Adaptada e ilustrada por Chloé Cruchaudet, a obra foi vencedora dos Prêmios do Festival de Angoulême (2014), na categoria melhor álbum e da Associação de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos francesa (2013). A adaptação feita por Cloé é baseada no livro La Garçonne et l’assassin, de Fabrice Virgili e Danièle Voldman que narra a história real entre o casal Paul e Louise, na Paris de 1910 à 1920.

A história se passa em uma Paris em ebulição social e cultural e, também, sob a chegada da Primeira Guerra Mundial. Paul e Louise se conhecem nos salões de dança, se apaixonam, vivem um romance até se casarem. Mas suas vidas enquanto marido e mulher são interrompidas com o anúncio da Primeira Guerra e o chamamento do exército para que Paul servisse na guerra. A partir deste ponto a história ganha outros rumos. Rumos inesperados ao casal e que vão mudar por completo suas vidas.

Paul não aceita servir ao exército e correr todos os riscos do front. Deseja fugir daquele inferno o mais rápido possível e torna-se um desertor. Com esta decisão, livra-se das trincheiras da guerra, mas torna-se uma pessoa reclusa a um quarto, tendo em vista que desertores eram fuzilados à época. Estar num quarto de hotel isolado, permite que Paul reencontre sua amada Louise, mas o tempo de confinamento começa a ficar pesado demais para ele. Pensando estratégias para dar fim a sua reclusão, Paul encontra na performance em outra identidade de gênero uma possibilidade. Assim, passa a vestir-se e performar como uma mulher e, dessa forma, frequentar as ruas de Paris. Paul, então, passa a ser Suzanne. 

E é nessa virada na vida das personagens que a história ganha força e diversos, mas diversas mesmo, pontos de reflexão e discussão. E nestes momentos de transição da HQ que a cor vermelha entra com mais ênfase. Antes a cor só aparecia nas roupas de Louise e no sangue dos soldados no campo de batalha. Agora o vermelho passa a fazer parte das roupas de Suzanne, do batom que ela usa, das unhas que ela passa a pintar. A paleta de cores usada por Chloé se concentra entre o preto, o branco, o vermelho e o terra, numa sacada que dá o tom sombrio da guerra e da noite, mas também a vida que pulsa a partir do momento que Suzanne vem à tona. Mas também, de um vermelho que se esmaece, à medida que a narrativa se complica para o casal.

Destaco para além da história e da paleta de cores, o traço da autora. Um traço fino, mas marcante. Um traço que se ilumina, mas que vive nas sombras. E as duas passagens de cenas de dança entre o casal, em folhas duplas e com uma noção de movimento impressionantes. A primeira cena é a do encontro dos dois, quando o passo se encaixa e o casal baila por todo o salão. A segunda cena, já mais pro final do livro, depois que Paul finalmente recebe o perdão por ter desertado e volta a se vestir como um homem, mas tem no corpo a vivência no gênero feminino, com o casal que tenta ajustar o passo sem o conseguir.

Fiquei muito curiosa por ler o livro em sua versão original, embora o quadrinho dê uma exata noção das questões de gênero abordadas. Dos traumas de guerra e as vivências do pós guerra. Das mais variadas formas de relacionamento afetivas e sexuais possíveis, mas que, ainda hoje, se dão às escondidas. Precisam estar no sub-parque, como acontece com Suzanne. Das relações de gênero e das dificuldades em se romper papéis, mesmo quando tudo já está mais do que rompido, mas que se dá à noite, às escuras e às escondidas.

Destaco ainda a personagem Louise, que faz tudo para que sua relação e a vida de Paul/Suzanne se organizem. Também passando por experiências afetivas e sexuais diversas, mas não fugindo do julgamento social e do machismo presente. E, por fim, ressaltar que a obra ficcionalizada por Chloé permite um roteiro mais diverso daquele narrado na obra original e baseado nos diários do casal que, inclusive, constam como textos de apoio ao final desta HQ.

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