Resenha – Dentes Brancos
por Patricia
em 21/10/20

Nota:

Archibald Jones está prestes a cometer suicídio depois de decidir que passar por um divórcio aos 40 anos, mesmo que de uma esposa de quem ele pouco gosta, é o fim da vida. Enquanto está sentado no seu carro tentando se sufocar com um aspirador de pó que expele sujeira em vez de aspirar, ele é interrompido pelo dono do açougue kosher que “não tem licença para suicídio na loja”.

Vendo isso como um sinal, ele decide que vai viver e pára em frente a uma comuna duvidosa que passou pela festa de Ano Novo que os Testemunhas de Jeová também achavam que seria o fim do mundo, mas não foi e agora há no ar um sentimento de frustração. O ano é 1975. Na casa, Jones conhece Clara. Uma jovem jamaicana de 19 anos que não tem nenhum dos dentes superiores. Se apaixonam e em poucas semanas se casam.

O melhor amigo de Archie é Samal Iqbal, um bengali mais ou menos muçulmano que emigrou para a Inglaterra depois de lutar pelo exército indiano e perder a mão direita por conta de fogo amigo. Casado com Alsana, uma indiana que conheceu seu marido na noite de núpcias, trabalha como garçom. Ambos os amigos se conheceram na 2a Guerra Mundial quando acabaram na mesma unidade inútil do exército britânico.

Alsana e Clara engravidam ao mesmo tempo: Clara da jovem Irie e Alsana dos gêmeos Millat (o rebelde) e Magid (o prodígio).

Partindo dessa estrutura, Smith nos apresenta o cenário de uma Inglaterra tão multicultural quanto cruel para imigrantes de primeira geração. Os pais que deixaram tudo para trás pelo sonho de uma vida melhor, conseguem, sim, algo melhor do que tinham antes mas nem de perto o que viam na televisão ou o que se permitiram imaginar.

Os pais dão a seus filhos oportunidades melhores do que tiveram, mas essas mesmas oportunidades os levam para longe da fundação familiar tão importante. Assim, entra-se num ciclo vicioso de desentendimento em que ninguém consegue enxergar o outro lado ou, nem mesmo, chegar a um meio termo.

Magid é enviado de volta para Bangladesh para se tornar um próprio homem muçulmano. E só vai ele porque a família Iqbal tem dinheiro o suficiente para a viagem de apenas um dos filhos. Os irmãos se afastam cada vez mais partindo para extremos impensáveis: um se junta a uma facção fundamentalista, o outro se torna ateu (e nada é o que você espera). Os pais já não conseguem se conectar com nenhum deles. A “vida melhor” os aproximou de tudo o que tentaram evitar. O que resta aos pais quando não conseguem entender nenhum contexto nos quais seus filhos estão inseridos?

É um choque de gerações nos termos mais clássicos. E Smith se diverte contando a história. Há trechos absolutamente engraçados e alguns tristes. Os altos e baixos são bem descritos, as fixações e os fanatismos, a passagem do tempo, a vida adolescente. A autora conseguiu reunir em sua primeira obra elementos que transformam “Dentes Brancos” em uma experiência por si só e um livro tranquilo (e divertido) de ler, apesar de suas mais de 500 páginas.

As críticas ao sistema inglês são claras e os flashbacks rápidos que preenchem algumas lacunas nas histórias dos personagens dão conta de explorar o papel da colonização britânica nas gerações seguintes. A forma como tratam as diferentes linhas de fanatismo (Testemunhas de Jeová e muçulmanos) também demonstram a hipocrisia inglesa de segregação e preconceito.

Só assim tarde do dia, ao entrar num playground, a gente topa com Isaac Leung ao lado do tanque de peixes, Danny Rahman do gol do futebol, Qaung O’Rourke jogando basquete e Irie Jones cantarolando uma canção. Crianças com o nome e o sobrenome num conflito direto. Nomes que ocultam em si um êxodo em massa, navios e aviões apinhados, desembarques mal recebidos, exames médicos. […] apesar de tudo isso, ainda é difícil aceitar que não haja alguém mais inglês do que indiano, que não haja alguém mais indiano do que o inglês. Ainda há jovens brancos que se irritam com isso, que sairão às ruas mal iluminadas, na hora em que os bares fecham, com uma faca de cozinha disfarçada na mão cerrada. (pág. 318)

O clímax do livro é bem próximo do final. As mais de 500 páginas convergem para um momento em que todas as subtramas estão no mesmo lugar e no mesmo enredo principal. A construção disso tudo é bem feita e bem conduzida – ainda que em algum momentos possa ser um pouco arrastada.

O livro está esgotado no Brasil já faz alguns anos. É uma pena. A qualidade da escrita, a aventura em que embarcamos junto com essas famílias e as críticas aos sistemas aos quais os personagens estão submetidos são atemporais.

Quando lançado, em 2000, o livro recebeu diversos prêmios, apesar do crítico James Wood dizer que Smith não fez nada além de compilar estilos de diversos autores. Mas isso seria verdade para todos os autores do mundo, não é mesmo? Partindo da obra dela, o crítico cunhou o termo “realismo histérico” – gênero que abarca romances extensos, ambiciosos e repletos de subtramas, na boa explicação da crítica Camila Von Holdefer.

Apesar de Wood usar o termo de forma pejorativa, em 2019, o livro ficou em 39o lugar na lista dos 100 melhores livros do século XXI pelo jornal inglês, The Guardian.

Baita estréia e uma obra que merece, com certeza, uma reedição brasileira.

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