Resenha – Diário de Fernando
por Patricia
em 12/06/13

Nota:

9788532524270

O subtítulo desse livro é “Nos cárceres da Ditadura militar brasileira”..então já sabem o que esperar, certo? Mais um livro sobre ditadura. Eu gosto muito de aprender sobre esses momentos importantes da História. A ditadura militar é o nosso “Never forget” mas algumas pessoas preferem fingir que não foi tão ruim. E, apesar de não ter vivido durante o período, acho que a frase correta é..não foi tão ruim para todo mundo, mas para alguns foi uma tragédia.

Fernando era um frade dominicano  de São Paulo e, junto com outros frades da ordem, se envolveu em ações de resistência à Ditadura – algo que lhe custou quatro anos nas “belas” prisões paulistas, sessões de torturas intensas, um sentimento de culpa, um vício em cigarros e resultou em um diário impressionante.

Frei Fernando escrevia no que podia (papel de pão, higiênico e afins) os fatos conforme iam ocorrendo e dava um jeito de ocultá-los da polícia. Seus registros nos apresentam um quadro vergonhoso da ditadura militar no país (como se fosse possível ficar pior…) Amostra grátis – mas não agradável:

“Arrancaram-me as roupas, dependuraram-me no pau de arara, ligaram os eletrodos em minhas orelhas e nos órgãos genitais; armaram-se de porrete, rodaram a manivela. fizeram-me estrebuchar sob a virulência das descargas elétricas. Não sei quantos cavalos do Apocalipse coicearam meu corpo, sei apenas que mergulhei num profundo e pavoroso vazio; meu ser havia se descolado do corpo que, lá em cima, do lado de fora, ardia em dores, berrava ansioso pela morte, atirava-se num macabro balé ritmado por pancadas, chutes e cargas elétricas, enquanto no âmago daquele vazio minha identidade, volatilizada, estilhaçava-se em mil pedaços.”

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Seu sentimento de culpa se deu essencialmente por um fato marcante – Frei Fernando tinha contato com Marighella – o inimigo número 1 da Ditadura em determinada época – e depois de uma sessão intensa de tortura, acabou entregando o que sabia sobre o paradeiro do líder comunista. Marighella foi assassinado em uma emboscada criada com as informações do frei (juntamente com outras). Por mais que não se possa culpá-lo por isso, Frei Fernando carregou a vergonha de ter participado da morte de um homem que ele claramente admirava.

Talvez, justamente por isso, Frei Fernando cita o nome completo de todos os seus torturadores e aqueles que compactuavam com a ação da polícia (como o Jornal Nacional que colocava as fotos dos rebeldes procurados pelo polícia na televisão para facilitar a delação ou o Jornal da Tarde que ajudava a polícia em troca de notícias exclusivas e, muitas vezes, seus jornalistas participavam das sessões de tortura para divulgar o quão subversivo era o torturado).

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Aliás, se você achava que nossa ditadura tinha alguma moral do tipo “não torturar crianças”, você está errado. Dom Fernando conta que uma mãe presa com seus três filhos, viu o mais novo – de apenas 4 meses – receber choques elétricos para forçá-la a contar o que sabia.

Frei Fernando escreve em seu diário suas análises do que vê ao seu redor enquanto vai nos entregando pensamentos muito profundos sobre religião, a condição humana, democracia e etc. O livro todo é permeado de frases de efeito e, no contexto, até mesmo pesadas. E isso faz com que a leitura possa parecer tensa mas não tira o mérito do que ele está tentando nos dizer. O clima era pesado porque a vida estava pesada.

Esse não é um livro fácil de ler se você tem algum sensibilidade a atrocidades alheias. Desde o começo, o livro vai criando um nó no estômago que, às vezes, demora para passar. Ele não me deixou com uma ressaca literária mas enquanto outros livros do mesmo tamanho (de 280 páginas) eu leria em uma semana, esse exigiu mais tempo porque depois de ler algumas coisas, eu simplesmente não conseguia ler mais nada. E acho isso positivo porque um livro sobre a ditadura não tem que ser leve, fofo e agradável. Ele tem que ser o que a ditadura foi…denso, forte e sufocante justamente para que as pessoas não se confudam – principalmente os que não viveram na época.

Para quem quer saber mais sobre as torturas da época da Ditadura, a Record está fazendo uma série de reportagens sobre o assunto – que ainda hoje é tabu – e aqui você encontra a primeira parte que fala justamente sobre a tortura de crianças: http://www.viomundo.com.br/denuncias/edson-teles-a-voz-era-de-minha-mae-o-rosto-nao-parecia.html

 

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