Resenha – Difficult Women
por Patricia
em 03/04/17

Nota:

Minha introdução a Roxane Gay foi através do excelente Bad Feminist – sobre o qual já falei aqui e que foi traduzido para o português e publicado pela Editora Novo Século que adicionou um sub-título bem bobinho dando um tom de ironia a um livro que tem conteúdos bem pertinentes e até sérios. Mas enfim, se eu ficar aqui discutindo o quanto a tradução e apresentação de uma obra no Brasil muda o tom da obra em si, precisaríamos criar muitas e muitas páginas extras.

Difficult Women – literalmente: Mulheres difíceis – é a obra mais recente de Gay e é composta por contos ou histórias curtas – todas ficção. A maioria das histórias são centradas em personagens femininas. A história que abre a obra – I will follow you – nos apresenta a duas irmãs que não se desgrudam de maneira nenhum. Quando a mais velha visita o marido – que vive em outra cidade – a mais jovem vai junto. A construção das personagens é interessante e a autora consegue imprimir no ritmo da história a sensação de que algo terrível aconteceu ou vai acontecer. Ela brinca com essa antecipação até que nos entrega, em doses curtas, a história real que é mais perturbadora do que podemos imaginar (e não vou entrar em detalhes para não estragar a surpresa/choque para quem decidir ler a obra).

As histórias tratarão de temas variados: estupro, mulheres masoquistas, mulheres em luto, mulheres lutando para lidar com sua sexualidade ou com seus relacionamentos. De fato, cada história poderia ser um livro se a autora decidisse expandir os enredos. Gay não se omite a tratar de mulheres quebradas e homens que as quebram – muitas de suas histórias, aliás, tratam desse tema de uma maneira ou de outra usando termos muito familiares para mulheres em alguns momentos: louca, vadia, puta, vagabunda, solta, mãe, filha, trabalhadora, esposa, traidora, corna, morta. Todas elas são complexas como todo ser humano, sem se desculparem por isso ainda que, às vezes, a complexidade de ser o que queremos possa ser extremamente pesada.

Além de abordar questões como sexismo, Gay também abordará racismo: assuntos que ela trouxe com muita clareza em Bad Feminist de maneira muito mais pessoal. A autora não se apoia em história padrões – existe amor e paixão, mas existe o lado negro desses sentimentos também. A força que empurra algumas de suas personagens para o bem é a mesma que vai destruir outras.

Ainda assim, vale ressaltar que nem todas as histórias têm a mesma força. Quando nos apresenta um casal cujo marido quer ter um relacionamento aberto, ela apenas nos explica que a mulher diz sim porque não acredita que o marido terá coragem ou capacidade de conquistar outra mulher. Nada mais desse relacionamento ou desses personagens é desenvolvido. Algumas outras histórias nos deixarão com o mesmo sentimento e serão rapidamente esquecidas quando a página virar. Mas as histórias boas nos deixarão com algum gosto estranho na boca. Pode ser de familiaridade com a situação ou aquela vontade de fechar os olhos e fingir que o que está escrito nas páginas não acontece na vida real.

A história mais diferente no livro, a meu ver, é Noble Things – que tem um cenário mais distópico: depois da eleição do atual presidente, as pessoas se rebelaram e os Estados Unidos foi dividido por muros. Flórida virou uma colônia de Cuba e o país voltou a ser dividido entre Norte e Sul como na época da Guerra da Secessão. Anna e Parker vivem no Sul mas discordam veementemente da divisão do país. Parker vem de família militar e seu pai lutou para ampliar a divisão do país. Este é um conto que eu gostaria muito que fosse um livro completo.

Alguns contos deixam a desejar, mas, no geral, temos uma obra sólida. Um trabalho de uma escritora de mão cheia, com idéias originais e uma visão clara e honesta de que as mulheres não são santas nem demoníacas, mas que podem ser tão complexas quanto qualquer outra pessoa e aguentam o peso disso todos os dias. Gay transporta isso para as páginas com muita competência.

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