Resenha – Dom Casmurro
por Bruno Lisboa
em 12/06/15

Nota:

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A obra Machadiana é vasta, inovadora, bela perfeitamente admirável aos olhos de bons leitores. Escritor de “mão cheia”, Machado de Assis escreveu em vida inúmeras obras que até hoje permanecem vivas no imaginário nacional.

Versátil, o autor se aventurou nos mais variados gêneros: conto, poesia, teatro, crítica e romance no qual se destacam Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Esaú e Jacó (1904) e o livro em questão Dom Casmuro.

Aclamado pela crítica mundial, Dom Casmurro é sem sombra de dúvida um clássico da Literatura Brasileira. A começar pela sua estrutura inovadora construída na ótica subjetiva, retrógrada, rebuscada e operística do personagem Bento Santiago.

Seu enredo gira em torno da visão unilateral de Bentinho, um advogado cinquentão, que vive solitário residente na cidade do Rio de Janeiro onde é conhecido como Dom Casmurro, cujo nome oriunda de sua visão amarga e desiludida da vida, ou como o próprio afirma no primeiro capítulo: “não consultes dicionários, Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo”.

Para suprir o vazio de sua vida pacata, o personagem central resolve remorar suas lembranças a partir de sua adolescência, período que descobre ser apaixonado pela vizinha, Capitu, que convence-o a não concordar com o projeto de sua mãe, Dona Glória, que queria fazê-lo padre. Bentinho se encanta pela firmeza de Capitu. Fica fascinado por seus cabelos, pelos olhos de ressaca.

Sua vida, após a decisão, toma o rumo que desejava e após concluído o curso de Direito em São Paulo se casa. Tudo corria bem até o dia em que brota o ciúme, de tudo e de todos. A história de outrora de amor torna-se ciúme doentio e Bento suspeita de traição. Isso faz com a índole de Bento Santiago se transforme: o “amável” homem vira um ser cruel e perverso. E é justamente neste ponto em que a narrativa chega ao seu ponto chave.

Capitu, “menina-moça” e um dos personagens mais fascinantes machadianos, é inteligente, determinada e aberta ao mundo. Mas em seu estreito mundo da interiorana Mata-Cavalos não existiam muitas variações: as jovens da época eram destinadas a aprender os afazeres domésticos para cumprir o único destino possível para a maioria delas que era o de casar, ter filhos e servir o marido. E por absoluta “falta de opção”, o único partido disponível é Bentinho que conhecia desde a infância.

Inicialmente, ela demonstrava todo o seu amor a Bentinho e o conquista de fora de forma árdua, pois enfrentou as imposições de Dona Glória que almejava para o filho a carreira de Seminarista. Conquista feita, tudo aparentava ser maravilhoso, mas no dia a dia, o homem maravilhoso que Capitu imaginava se desfaz e transforma-se num ser sem graça. Eis então que adentra a vida do casal Escobar, amigo dos tempos de seminário, que Bentinho sempre falava e elogiava.  O oposto de seu marido, Escobar é belo e exuberante aos seus olhos. Tanto deslumbre por parte de Capitu faz com que a desconfiança nasça em Bentinho de uma possível relação entre ambos.  A semelhança física de seu filho Ezequiel com Escobar é outro ponto chave para Bentinho que credita ao velho amigo a paternidade.

Se Capitu pecou ou não pouco (ou muito) se sabe já que não há uma denúncia explícita quanto ao adultério. Sabiamente o autor deixa para o leitor o julgamento final.

De certo temos a análise da crítica Helen Caldwell, estudiosa da obra Machadiana (mais especificadamente Dom Casmurro em The Brazilian Othelo of Machado de Assis), que tem o livro como “talvez o mais fino de todos os romances americanos de ambos os continentes”. Afirmação mais do que acertada.

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