Resenha – Dona Bárbara
por Poderoso
em 15/12/21

Nota:

Por Gabriel Pinheiro – @tgpgabriel

“Llanura venezuelana! Propícia para o esforço, como foi para a façanha, terra de horizontes abertos, onde uma raça boa ama, sofre e espera!…”

Existem livros que nos possibilitam uma viagem profunda pelo lugar, pelos personagens e pelos temas que abordam. Dona Bárbara, clássico de Rómulo Gallegos, é um destes casos: um mergulho no llano venezuelano – o campo, a planície de nosso vizinho latinoamericano – seus costumes, sua gente brava e acolhedora, sua música, suas dores, suas disputas e sua violência. É mesmo sensorial: você escuta a cantoria dos peões sob a luz da lua, sente o cheiro do café recém coado ao alvorecer e o toque da sela do cavalo daquele que dá início a mais um dia de labuta.

Neste llano escrito por Gallegos há Dona Bárbara: uma mulher que é quase uma entidade. Motivo de inveja, admiração e sobretudo, temor. “Devoradora de homens”, Bárbara é a representação do coronelismo neste campo venezuelano – que muito tem em comum com o nosso -, esta figura detentora do poder político, financeiro e jurídico. Liderança e violência.

Ela, que “fustigou muitos homens e é dada a encantamentos”, age de acordo com suas intenções, suas ambições. Não há homem para interrompê-la. É muito interessante a construção da personagem: a violência do presente é uma resposta à violência sofrida no passado. As dores e os traumas moldaram esta mulher, endureceram seu ser.

Percebemos o incômodo que há em uma mulher ocupar este lugar de protagonismo e liderança. Não à toa os comentários – de seus funcionários a suas inimizades –  que buscam masculinizá-la, dizendo que esta age como um homem – e não de acordo com o lugar reservado à mulher no campo venezuelano à época do romance. “Dada a encantamentos”, também tem fama de bruxa, feiticeira: mais um motivo de medo para seus inimigos e obediência para aqueles sob suas ordens.

Se Dona Bárbara é esta figura da manutenção dos costumes, seu contraponto é Santos Luzardo. Este é herdeiro da propriedade de Altamira, abandonada à própria sorte por ele nas mãos de administradores que pouco a pouco foram minando suas riquezas, seu gado, suas dimensões. Luzardo volta da cidade – lugar de estudo, lugar onde torna-se um “doutor” – para o campo de sua infância. E é nesse retorno que se depara com o abandono à própria sorte da propriedade de sua família. Se em um primeiro momento a intenção era apenas preparar Altamira para vendê-la, um instinto civilizador toma conta de Santos Luzardo: permanecer em sua propriedade com a intenção de modernizar o llano: levar a evolução da cidade para o campo, civilizá-lo.

Mas há uma questão: este llano é território de Bárbara, figura das tradições do campo, a permanência do poder nas mãos daqueles que o detém e a obrigação da obediência àqueles que devem obedecer. É no embate entre Bárbara e Luzardo, tradição e modernização, barbárie e civilização, que se dá o romance de Rómulo Gallegos.

Importante: Gallegos não constrói uma dicotomia simples entre Luzardo e Bárbara, separando-os entre o “bem” e o “mal”. Nada é tão claro e definitivo. E nesta disputa entre suas duas forças, transformações profundas ocorrerão em ambos os lados.

A terra como personagem, viva e ativa

Talvez o principal personagem do romance seja mesmo a terra. Este llano venezuelano – região da savana, de um bioma rico, com duas estações muito bem marcadas: ora a estação das chuvas torrenciais, ora um longo período de secas – é lugar das mais belas imagens da natureza e de atrozes violências.

O homem do campo – o llanero – cria uma relação intrínseca com este ecossistema, uma verdadeira simbiose deste com a terra, esta llanura que toma conta de seu ser, refletindo nos seus sentimentos, do seu modo de agir e pensar.

Assim como Bárbara, esta llanura é “devoradora de homens”. Ela te dá aquilo que você deseja, mas cobra seu preço. É lugar de bravura, mas também de melancolia. É lugar de disputas e é lugar de solidão. O que me traz de volta para o Brasil: como esta narrativa nos aproxima de nosso vizinho latinoamericano. É uma relação com a terra que guarda muitas semelhanças com aquela do homem do campo brasileiro. Aqui também um lugar de beleza e vida profunda, mas de disputas e barbáries.

“E de tudo isso e por todas as potências de sua alma, abertas à força, à beleza e à dor da llanura, entrou-lhe o desejo de amá-la tal como era, bárbara porém bonita, e de se entregar e de se deixar moldar por ela, abandonando aquela perene atitude vigilante contra a adaptação à vida simples e rude do pastoreio”.

Termino Dona Bárbara encantado com o llano venezuelano descrito por Rómulo Gallegos. Assombrado por Bárbara, sua fúria e seu destemor, sua violência e sua força.

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