Resenha – Dono do morro: um homem e a batalha pelo Rio
por Bruno Lisboa
em 03/05/17

Nota:

 

“O jornalismo investigativo no Brasil não adotou o modelo dos EUA”. A frase, retirada de uma matéria da Folha, resume o estado do jornalismo brasileiro. O primeiro opta pelo imediatismo, o sensacionalismo, o discurso de propaganda e a falta de apuração das matérias. Já o formato adotado na terra do Tio Sam é minucioso e geralmente acarreta a meses de pesquisa em busca da verdade. Quem já viu Spotlight (já resenhado aqui), tem no longa de Tom McCarthy, baseado em fatos reais, um dos maiores exemplos do grande potencial social de matérias desta seara. Se ao jornalista nacional, geralmente, falta culhão para sair do esquema, já manjado, de publicações de inverdades, ao estrangeiro coragem não falta. Prova disso é o bom O dono do morro: um homem e a batalha pelo Rio. O livro, escrito pelo jornalista britânico Misha Glenny, nasceu a partir do interesse da história pessoal de Nem da Rocinha, famoso traficante carioca, preso em 2011.

O enredo, muito bem escrito e com ares cinematográficos, aborda o dilema pessoal vivido por Antônio Francisco Bonfim Lopes. Antônio é um típico cidadão brasileiro, morador de uma das maiores favelas do Rio (a Rocinha), que precisa trabalhar arduamente em busca da sobrevivência. Porém, sua vida muda drasticamente  a partir do momento em que se vê numa encruzilhada, já que não tem dinheiro para bancar o caro tratamento de sua filha, portadora de uma doença rara. Sem ter a quem recorrer, Lopes procura Lulu (um dos chefes do tráfico local) que ajuda-o, mas em troca de uma prestação de serviço. Este evento seria marcado como o período em que Antônio se tornaria Nem, um dos maiores traficantes da história brasileira.

Sua história de acensão (e queda) se dá a partir do momento em que começa a conquistar, de maneira inteligente, seu espaço e respeito na comunidade.  Diferentemente de seus antecessores, que priorizavam reinados exibicionistas de terror, Nem adotava um perfil mais humanístico (um autêntico anti-herói), dando atenção a sua grande família e apoio financeiro aos moradores. Tal escolha, inclusive, fizera com que a violência local reduzisse e potencializasse o turismo local. Mas, em contrapartida, não deixava de lado as atividades do tráfico de drogas, que crescia para além dos territórios cariocas, e chamava atenção das autoridades locais e rivais internos que o perseguiam implacavelmente, até resultar na sua misteriosa prisão.

Mas a narrativa não centra somente ao homenageado. Glenny, cujos trabalhos em sua maioria são em ode ao crime organizado mundo afora, faz de O dono do morro um autêntico e fidedigno retrato da criminalidade no Brasil. Sem pudores, o autor fala das origens de organizações criminosas como o Comando Vermelho e da ADA  (Amigos dos amigos) e da corrupção policial por parte das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) demonstrando, em detalhes, com estes grupos adentraram as favelas, criando um perigoso e sustentável circulo vicioso ante a comercialização das drogas.

Se o Brasil é carente de literatura, ou de autores, que contem a história recente do país O dono do morro é referência pois ajuda a compreender, em sua real dimensão, a caótica situação, em especial, do Rio de Janeiro e do país. Ainda mais na atual crise de desemprego na qual, cada vez mais, vemos o cidadão comum, sem ter como colocar comida na mesa, recorrer as diversas práticas criminosas.

É triste pensar sob esta ótica, mas os tempos são sombrios e podem piorar ainda mais.

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O livro foi enviado pela editora.

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