Resenha – Dupla falta
por Patricia
em 01/07/14

Nota:

dupla-falta

Em um mundo ideal, um livro da Lionel Shriver raramente fica parado na minha estante. Sou fã da autora desde que li o incrível Precisamos falar sobre o Kevin (ela já apareceu aqui no Poderoso também com Tempo é dinheiro). A questão com Dupla falta que me manteve pouco empolgada é porque o livro gira em torno de tênis, um esporte do qual não sou fã e sobre o qual eu entendo muito pouco.

Mas só tinha um jeito de saber de verdade se o livro seria bom ou ruim.

Willy Novinsky é uma tenista viciada no esporte. Todo seu foco e energia é direcionado para o jogo desde seus 5 anos de idade. Durante uma partida divertida com amadores, ela conhece Eric Oberdorf – 1 ano mais novo que ela, matemático formado em Princeton que também quer dedicar-se ao tênis.

Em poucos meses eles decidem casar. É a partir do casamento que Shriver começa a amarrar o tênis com o enredo que ela criou. Willy e Eric têm a mesma ambição: viver do tênis. Mas, para isso, precisam de um trabalho insano para escalar os rankings e chegar a uma respeitável colocação. Willy está nessa luta desde os 17 anos como jogadora profissional e já está no top 500. Eric, que pegou uma raquete pela primeira vez na vida aos 18, está quase posicionado como milésimo. A autora ajuda os leitores leigos – como eu – a entender a importância desse ranking: quanto mais bem colocado está o tenista, melhores são suas chances de participar de competições que pagam prêmios milionários.

Willy nunca teve problemas de auto-estima como tenista e dedicou corpo, alma e diploma ao tênis. Eric não vê o tênis com a mesma adoração que a esposa. Ele é bom nisso, tem uma auto estima que às vezes parece arrogância e uma missão: chegar ao top 10. O que para Willy é uma paixão quase doentia, para Eric é uma meta apenas.

Mas  à medida que Eric começa a treinar e demonstrar mais jogo que Willy, eles entram em um turbilhão no relacionamento que tem como centro não apenas o esporte, mas uma competição insana. Nem tanto Eric, mas Willy não aceita nem mesmo quando o marido consegue pular mais corda que ela. Ela chega a sentir ódio dele nesses momentos.

Claro, o tênis é uma presença clara e constante, mas o que vai acontecer com Eric e Willy é uma competição acirrada e um debate acalorado sobre ganhar e perder. E, mais profundamente, sobre mulheres que se sentem inferiores aos companheiros. E pior, no mundo esportivo são tratadas como menos importantes. O próprio treinador de Willy comenta em certo momento: “Nunca treinei uma mulher que não fosse cheia de buracos”.  E temos outra reviravolta no enredo, no melhor estilo Shriver, quando Willy se machuca de maneira séria e pode nunca mais jogar de novo. A carreira de Willy começa a decair enquanto a de Eric está em franca ascensão.

O livro é narrado em 3a pessoa mas o ponto focal é Willy. É através dos olhos dela que veremos certas cenas e seremos informados da emoção do momento. Shriver tem um dom incrível para falar dos problemas das mulheres modernas. Willy está presa em sua própria ambição e não consegue lidar com mais nada, nem família, nem críticas, nem falhas. Depois que sua carreira começa um caminho sem volta para o buraco, ela entra em um poço de auto-piedade que é deprimente de ler.

Ainda assim, ela representa muito as mulheres que precisam responder a todas as obsessões da sociedade e acabam se perdendo. Até porque, quem consegue lidar com tudo ao mesmo tempo? Ser mãe ou não? Casar ou não? Como ser mãe, esposa e ainda uma tenista de carreira? Como fazer tudo isso e ainda ser magra, sociável e manter uma ambição saudável? A lista só aumenta.

O livro vai além do tênis e um pouco além do casamento para retratar a jovem mulher moderna que quer tudo, mas precisa fazer escolhas drásticas, às vezes.  Mas prepare-se, há momentos em que a escrita chega a um nível de depressão que facilmente passa para o leitor. Talvez não seja um livro para se ler em um dia. Mas a maneira como Shriver retrata os problemas das mulheres (e isso em 1990), é tão no alvo que chega a incomodar.

Então estava eu esperando nada do livro e tive algumas epifaniass durante a leitura. Ainda não encontrei outra autora contemporânea que fala de mulheres como Shriver (aceito dicas). É realmente incrível. Mais uma vez, a autora me surpreende e volta a firmar seu posto de diva da minha estante.

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2 Comentários em “Resenha – Dupla falta”


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gleice em 02.07.2014 às 09:26 Responder

Esse livro tá parado na minha estante por pura displicência, rs. Mas acho que isso vai mudar, rs. Shriver é diva. Sempre mexendo na ferida. Já leu algo do Chris Cleave? Ele tb sempre faz questionamentos interessantes.

beijoooos

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Paty em 02.07.2014 às 09:43 Responder

Eis uma fato. Diva, totalmente. 😀 Eu estou com o Ouro do Cleave em casa. Vou tentar ler logo. 🙂


 

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