Resenha – Em nossa cidade amarelinha era sapata
por Juliana Costa Cunha
em 12/07/21

Nota:

Em nossa cidade amarelinha era sapata é o último conto deste livro de Marina Monteiro, escritora nascida em Porto Alegre e atualmente moradora do Rio de Janeiro. Com este livro, editado pela Patuá, Marina recebeu o prêmio AGES 2020 como melhor livro do ano na categoria narrativas curtas.

O conto que encerra o livro, narra o olhar de uma menina para as possibilidades de relacionamento entre mulheres, a partir do preconceito de sua mãe. É bem sutil como a autora vai misturando a compreensão da criança com o jogo de amarelinha e algumas coisas ditas pela mãe. E o desfecho, com a boca literalmente numa maçã do amor, é bem simbólico. Acho interessante terminar o livro com um conto narrado por uma criança, depois de todas as narrativas já lidas ao longo do livro. Dá uma sensação de começo, no fim.

O início de tudo e todas as dificuldades. Marina nos entrega um livro de contos cujas personagens são mulheres lésbicas ou bissexuais. Em seus agradecimento faz um em especial “a todas as mulheres sapatonas e bissexuais deste país, as de ontem, hoje e amanhã, pela resistência e existência”, deixando exatamente esta sensação ao finalizar a leitura do livro. As narrativas nos falam da resistência e existência dessas mulheres. Falam das dores e delícias de ser. Fala da liberdade de conseguir ser quem se é, mesmo que isso leve 20 anos.

A autora parte de um tema central e o desenvolve de formas diversas. Passeamos pelas incertezas em assumir-se. Pelas descobertas de novos amores. Pelas dores das separações. Por amizades que se formam, mesmo ao término de relações. Por caminhos que se cruzam. E por preconceitos também. A cada conto nos deparamos com uma habilidade em contar histórias de várias formas. Marina nos narra de forma potente, brincalhona, triste e com raiva. Consegue imprimir a marca da inocência, bem como do sensual.

Os contos tratam de histórias universais, mesmo que as personagens sejam lésbicas ou bissexuais. E Marina faz isso com uma naturalidade espantosa. Outro ponto que gostaria de destacar é a paisagem urbana que compõe os contos, tornando quase outra personagem deles. Essa característica demarca mais ainda a transitoriedade é a impermanência contida nos contos.

Para além da narrativa impressa pela autora em seus contos, me peguei pensando sobre o óbvio: a vida comum e cotidiana das personagens. Vidas que seguem o fluxo e que estão na batalha pela existência. Resistindo aos preconceitos vivenciados e, em sua maioria, ressignificando a existência.

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Livro enviado pela autora

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