Resenha – Enfim, capivaras
por Patricia
em 03/11/20

Nota:

Durante uma aula de seu mestrado na Irlanda, Luisa Geisler estava fazendo uma apresentação sobre a experiência brasileira e citou uma capivara. Ao ver a cara confusa dos ouvintes, percebeu que capivara não era um conceito conhecido mundialmente, como ela achava. O que, aliás, é um completo absurdo e o mundo não sabe o que está perdendo ao não conhecer capivaras.

“Enfim, capivaras” se passa no interior de Minas Gerais, na Chapada do Pytuna, uma cidade fictícia com dois restaurantes, uma praça central e composta por fazendas de soja e gado. O choque para uma das protagonistas, Vanessa, que vem de Porto Alegre, é considerável.

Ela se torna amiga de um grupo eclético: temos Nick, apelido de Nicole, que tem um estilo mais andrógeno e, mesmo no calor seco da cidade, gosta de usar cortuno e maquiagem; temos Léo que é filho de um fazendeiro conhecido na cidade; Zé Luis que é filho da empregada da família de Léo e Denis, o mentiroso da turma. Ou, pelo menos, é o que todos acham.

A historia começa quando os quatro decidem ir visitar a capivara que Denis diz ter como animal de estimação. Duvidando da história do amigo, eles chegam na casa dele apenas para descobrir que, coincidência, a capivara havia fugido.

Começa então uma aventura em que muita coisa será posta em cheque, mas principalmente uma conversa franca sobre pertencer e encontrar seu lugar no mundo (que muitas vezes, não é um lugar propriamente dito).

Esse é o primeiro livro da autora para o público jovem depois de cinco romances. A adaptação para o mundo jovem parece ter sido uma transição tranquila para Geisler. A qualidade de sua escrita não trata o leitor como inferior e apesar do publico ser jovem, ela não se exime de trazer assuntos complexos e sérios para a conversa – assuntos que, cada vez mais, deveriam e são discutidos por uma juventude conectada ao mundo, mesmo vivendo no fim desse mundo.

O que une esse grupo de amigo é exatamente a busca por algo, algo além de si mesmos que vem disfarçada de uma capivara mas é muito mais profundo. Quase todos os personagens ganham perspectivas próprias menos Denis. Terminamos sem saber a fonte de tanta imaginação para suas histórias ou suas motivações para as lorotas que gosta de contar.

Li o livro em poucas horas. A escrita viciante, as cenas divertidas, a profundidade inesperada de alguns personagens me deram exatamente o que eu precisava para um fim de semana. Porém, o livro teria ganhado novas dimensões se tivéssemos uma visão de Denis da história.

Geisler desponta como uma autora muito autêntica ao mesmo tempo que flexível. Uma qualidade rara na literatura contemporânea em que autores parecem ser colocados em caixinhas das quais poucos saem e, se falamos especificamente de autores do segmento de literatura jovem, seguem prolongando séries intermináveis do mesmo universo.

Café quentinho para dias frios.

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O livro foi enviado pela editora.

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