Resenha – Enterre seus mortos/De cada quinhentos uma alma
por Juliana Costa Cunha
em 30/11/21

Nota:

Ana Paula Maia já passou por aqui e é uma autora que gosto muito. Já tinha em casa o Enterre seus mortos e ainda não havia lido. Daí que quando a Companhia das Letras nos sinalizou o envio do livro De cada quinhentos uma alma (sequência do Enterre seus mortos e que compõe uma trilogia), resolvi que estava na hora de encontrar Edgar Wilson novamente.

Aqui já é bom sinalizar uma questão. O Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, também faz parte de uma trilogia chamada “A saga dos brutos”. Antes dele tem o Carvão Animal (que eu tenho e ainda não li). Uma coisa que a autora e sua editora deixam explicita em suas falas / divulgação é que os livros podem ser lidos de forma aleatória, pois as personagens se repetem. Ana Paula insere elementos na narrativa que nos fazem entender o contexto do livro anterior. Entretanto, agora que passei pela experiência de ler em sequência, devo discordar dessa premissa. Primeiro que pra mim fez toda diferença já conhecer Edgar Wilson, saber de seu passado, para adentrar em Enterre seus mortos e entender melhor o contexto em que a personagem agora se encontra. Segundo porque, tendo lido este e emendado na sequência, me deu muito mais elementos para perceber melhor o que se passava naquele não lugar criado pela autora. E, agora, já tô ansiosa pra ver esse desfecho.

Enterre seus mortos foi finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e nos encontramos de novo com seu personagem principal Edgar Wilson. Aqui Edgar não abate mais porcos, mas recolhe corpos de animais mortos na estrada, junto com seu amigo Tomás. Este, é um padre excomungado. Que segue dando extrema unção aos seres humanos que encontra mortos nas estradas, vítimas da colisão com os animais. Ou vítimas da violência vivida na região. Edgar e Tomás trabalham recolhendo corpos de bichos e não dos humanos.

Ana Paula Maia cria um não lugar nesta narrativa. Uma cidade ou vilarejo, que se vê rodeada por uma mina que vive em constante explosão (com os horários já conhecidos pelos moradores do local que sempre precisam se abrigar). Temos a impressão que o processo de degradação social e ambiental da região iniciou com a chegada dessa mina. Com isso tudo degrada e morre – os seres humanos, os animais, a natureza e o estado.

Em meio ao caos o único serviço que funciona é o de recolhimento dos animais mortos na estrada. São diversos bichos atropelados por carros, ou que os atropelam como se estivessem numa fuga desesperada. O recolhimento desses corpos é assegurado, mas dos humanos não, fazendo com quê Edgar Wilson recolha dois corpos e então se dê uma saga para de fato enterra-los.

Em, De cada quinhentos uma alma, temos mais um personagem agregado à história – Bronco Gil (que também já apareceu em outros dois livros da autora, o De gados e homens (quando Edgar e Bronco se conhecem) e o Assim na terra, como embaixo da terra). Sem saber o porquê, Bronco pega a estrada rumo ao oeste até que tem que parar de guiar sua caminhonete em função de um acidente onde várias ovelhas estavam mortas na estrada. Esta, inclusive, é a cena final do Enterre seus mortos. Nesse resgate dos corpos das ovelhas, estão Edgar Wilson e Tomás. Percebem que as histórias vão se complementando e as personagens se reencontram, mesmo em livros diferentes? É por isso que digo que ler em sequência faz diferença sim.

Bem, o reencontro dessas personagens parece fazer alusão a um grande encontro daqueles que sobrevivem às tragédias da vida cotidiana. E, juntos, tentam encontrar explicação para tudo o que está acontecendo. Aqui nos deparamos com a cidade assolada por uma epidemia (que talvez já estivesse por ali no livro anterior, mas não foi nominada) e um tom apocalíptico. A mina fica silenciada, já não há mais trabalhadores. E o som que predomina agora é o da pregação que toma conta de todos os espaços pela suposta chegada do fim dos tempos. Com o aumento da epidemia, os animais já não existem mais nas estradas, já que há a eficiência do serviço de coleta de seus corpos. Nas estradas agora, o que se proliferam são corpos humanos. E o trio, Edgar, Tomás e Bronco, começam a recolhê-los, dando assim o mote para o desenrolar deste livro.

Muitas pessoas colocam a literatura feita por Ana Paula Maia no gênero do terror. E eu discordo. Pelo menos do terror clássico como o conhecemos. Concordo com a classificação no horror e fico pensando na distopia também. Mas, ao mesmo tempo, sinto as histórias da autora de forma muito palpáveis. Me parecem cenas de nosso cotidiano. E neste segundo livro isso ficou muito mais forte para mim.

Tenho empatia por Edgar Wilson e toda sua dualidade de emoções e reações. Empatia por seus princípios duvidosos para uma sociedade que se pretende funcionar dentro do princípio da democracia e dos direitos iguais a todas as pessoas. Mas que na realidade, não funciona. Principalmente para as camadas sociais retratadas pela autora. Eu sigo gostando muito do que ela nos propõe enquanto projeto literário e do que ela nos instiga a refletir.

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Livro enviado pela editora

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