Resenha – Escravidão – vol. 2
por Patricia
em 05/11/21

Nota:

Esses trabalhadores, para mitigarem a sua penosa labuta, entoam uma triste e melancólica canção recitativo, a qual, acompanhada pelo retinir das correntes, é a própria voz do infortúnio. (pág. 169)

Com um ano de atraso, em grande parte por conta da pandemia, temos o 2º volume da trilogia do jornalista Laurentino Gomes sobre a escravidão no Brasil. O primeiro volume já foi resenhado aqui no Poderoso no ano de seu lançamento.

Se no primeiro volume, Gomes analisa os primeiros passos para o que se tornou a maior transação de pessoas da História, neste segundo, seu foco é totalmente na construção do Brasil em cima de costas africanas açoitadas. E, para isso, ele começa sua narrativa a partir da corrida do ouro que, para Portugal, um Estado em declínio e endividado, era o alívio esperado. A corrida do ouro em Minas Gerais transformou o Brasil de uma simples colônia para a linha de salvação de um “império” mal gerido, corrupto e quebrado. E também extrapolou a necessidade de escravos para dar conta de ouro como nunca se havia visto antes.

Nos primeiros 100 anos desde a chegada de Cabral, estima-se que 30.000 africanos escravizados foram trazidos ao Brasil. Nos 100 anos seguintes, esse número cresceu 26 vezes: 784 mil. Mais 100 anos e esse número já estaria na casa de 2 milhões.

O que me pareceu mais explícito nesse volume do que no primeiro é a aplicação e a influência da lógica do capital na escravidão. Sabemos que mão de obra barata é uma das bases do capitalismo e que a escravidão elevou isso ao limite. Mas quando olhamos a lógica do capital aplicada ao valor humano de forma tão crua, dá um certo arrepio. Por exemplo, quando o autor explica que, ao vislumbrar a abolição da escravatura, os fazendeiros brasileiros começaram a comprar mais crianças africanas para que pudessem ter uma mão de obra cativa que “durasse mais tempo”.

É assim que percebemos que as implicações da escravidão vão muito além da estrutura racista que temos no Brasil. Ela também estruturou a realidade capitalista em torno da valoração da vida, criando uma aberração de mercado.

Em 1718, o médico residente na fortificação sugeriu que fossem construídos aposentos especiais para os doentes e que as laterais e o piso dos porões fossem forrados com camadas de madeira, de modo a conter a infiltração da umidade das rochas. […] Os porões deveriam ser limpos toda manhã com suco de ficheiro. Nada disso foi feito. Os cativos recém-chegados do interior eram tão numerosos e os preços tão baratos que os responsáveis pela fortificação chegaram à conclusão que seria mais vantajoso arcar com os prejuízos da mortalidade entre os prisioneiros do que investir em obras de melhoria. (pág. 186)

Em alguns momentos, o livro poderia ter se beneficiado de uma revisão melhor. Algumas informações são repetidas de formas diferentes em vários capítulos. Por exemplo, em 3 capítulos diferentes Gomes nos conta que as escravas que vendiam quitutes perto de jazidas foram proibidas de vender ali por suspeita de que participavam de algum esquema de tráfico de diamantes. Claramente, o livro foi entregue em pedaços e quando se junta tudo, esses detalhes de repetição parecem ter passado batido.

Mas tal como em suas obras anteriores, a pesquisa extensa ainda é o maior trunfo de Laurentino Gomes que traz dados, exemplos e cita uma miríade de historiadores sobre o tema abordado. E quanto mais lemos, mais uma frase se sobressai e, apesar de ser uma descrição de um massacre na África, não poderia ser mais pertinente à terra tupiniquim definindo a história brasileira de 1500 até hoje: “Se tivesse chovido sangue, o solo não estaria tão encharcado”.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Escravidão – vol. 2”


 

Comentar