Resenha – Essa Menina
por Bruno Lisboa
em 05/04/16

Nota:

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“O brasileiro parece esquecer ou ignorar a sua própria história”. A frase anterior, cuja autoria é desconhecida, de certa forma ilustra o momento atual brasileiro. Prova disso é visualizar em manifestações Brasil à fora, um país dividido. De um lado o contingente a favor da democracia e de outro os que clamam pela volta da ditadura, de governos fascistas ou pedem por intervenções militares.

O povo, de maneira geral, tem esquecido que num passado, nem tão remoto assim, nosso país passou por tempos tenebrosos ligados a governantes que primavam pela eliminação da liberdade individual. A ignorância popular, infelizmente, age como um vírus que acaba por disseminar inclusive na própria identidade do brasileiro que a cada vez menos olha para trás, não reconhecendo as origens de sua própria nação ou a si mesmo.

Para tentar suprir essa lacuna parte da literatura brasileira, de ontem e de hoje, tem se ocupado por registrar e dialogar com o nosso passado. Como exemplo recente Essa menina, livro de estreia de Tina Correia, cumpre essa tarefa com louvor.

De maneira semi-autobiográfica, a obra (que demorou 30 anos para ser lançada) tem como personagem central a menina Esperança, cujo apelido é Essa Menina.

Estruturado em contos, sem uma cronologia direta, a história percorre a partir de sua infância até o início de sua idade adulta. Ambientado na interiorana cidade Paripiranga (Bahia), a narrativa tem como pano de fundo três décadas da história brasileira, partindo os anos 30 até os 60, período de grande eferverscência cultural.

E para contextualizar o mesmo a autora promove de maneira pontual uma autêntica imersão a cultura da época, usufruindo não só da linguagem regional, mas também fazendo menção a manifestações populares e religiosas,  crendices, tradições e canções. O usufruto deste recurso contribuí e enriquece emocionalmente o desenrolar da história.

O cenário político da época, partindo da era Vargas até a chegada da ditadura ao poder, também ganha atenção. Para ilustrar este contexto, mesmo que de forma breve, Correia utiliza a figura do pai de Esperança que fora preso por inúmeras vezes pela polícia. Devido ao fato do mesmo ser integrante do partido comunista brasileiro, oposição da época, membros do grupo eram presos com certa regularidade. Agruras estas que Esperança viria sofrer anos mais tarde.

De maneira geral, Essa menina ilustra de maneira sutil e bela as esperanças de uma geração que acreditava no poder transformador da educação e, principalmente, lutou de maneira árdua pela conquista da liberdade.

Em tempos onde os ideais da nação surgem de modo dicotômico e temerário, o livro serve como espelho para que relembremos positivamente não só nossas origens culturais, mas também para que nunca esqueçamos o que de ruim nosso passado nos reservou.

Afinal como afirmou o finado filósofo Edmund Burke “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

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O livro foi enviado pela editora.

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