Resenha – Estrela solitária: Um brasileiro chamado Garrincha
por Patricia
em 14/07/14

Nota:

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Muitos dos meus presentes literários para meu pai incluíam futebol de alguma maneira (inclusive o incrível Futebol e Guerra que ops, está aqui em casa e ‘esqueci de devolver’- chato quando isso acontece, né?!). Especialmente a biografia de Garrincha, um livro que foi tão polêmico com direito a brigas judiciais que duraram anos e que por muito tempo simplesmente sumiu das prateleiras quando a editora foi proibida de vender a obra. Encontrei um exemplar em um sebo há alguns anos e achei que valeria a leitura (beijo, censura).

A edição voltou recentemente às livrarias e, pelo que notei, é exatamente a mesma que encontrei no sebo. Pelo que me parece, houve um acordo financeiro entre a editora e os herdeiros do jogador. Portanto, deve ser fácil encontrar o livro agora.

Depois da eliminação brasileira da Copa do Mundo esse mês, achei que falar de um de nossos maiores jogadores serviria para lembrar-nos que a Seleção tem muito mais História do que apenas uma campanha tenebrosa em uma Copa do Mundo. Muitas alegrias e muitas tristezas também. Garrincha proporcionou, a seu tempo, ambas as emoções ao brasileiro. E, com toda justiça, continua sendo lembrado como um dos maiores camisas 7 da Seleção.

Para começar a contar a história de Garrincha, Ruy Castro retorna quase 100 anos para um Brasil escravocrata e arredio. Os negros estavam prestes a serem libertados e os índios tornaram-se a moeda da vez. Os índios foram tão escravizados quanto negros, mas como não conseguiam entender as regras de trabalhar na lavoura eram considerados vagabundos e, por isso, desvalorizados no mercado. Garrincha era bisneto de índios escravos de Pernambuco que, uma vez livres, acabaram encontrando alguma paz em Alagoas. Seu avô casou-se com uma moça cafuza e ambos também eram escravos. Livres foram seus pais, mas apenas da lavoura. Pela cor de sua pele, estavam destinados a uma enorme pobreza e ao esquecimento (certas coisas não mudam).

A família teve uma mudança repentina quando Manuel, o tio mais velho de Garrincha (que ainda não era nascido na época), decidiu ir para o Rio de Janeiro, mais especificamente para a cidade de Pau Grande, ganhar a vida e conseguiu tornar-se um empresário de certo sucesso. Manuel trouxe todos os irmãos para a cidade. Ali, em 1933, nasceu Manuel (nomeado em homenagem ao tio) – que seria conhecido como Mané Garrincha. Com as pernas tortas e uma mania de se divertir caçando passarinhos e jogando peladas descalço, Garrincha demoraria a entender o futebol como profissão.

Aos 20 anos, já estava casado, com filha, saindo com diversas mulheres na surdina e assinava um contrato para jogar no time profissional do Botafogo. Mas profissional para o time era uma coisa, para Garrincha era outra. Ele não levava a sério a disciplina necessária para ser um jogador de verdade e dava risada quando pediam para que driblasse menos. Para ele, a graça do futebol não era o gol, o dinheiro, ganhar campeonato…era driblar o oponente e manter o controle da bola.

Em 57, o Botafogo alcançou a glória e tornou-se campeão carioca. Em 58, Garrincha foi escalado para o time da Seleção para a Copa que seria na Suécia. Volta campeão e tachado de “maior ponta direita do mundo” pelos europeus (Hulk apenas sonha). Além da fama, também deixou lá um filho, do qual abriu mão da paternidade. Aliás, a vida pessoal de Garrincha era uma coisa de novela: mantinha a esposa em Pau Grande com suas oito filhas (isso mesmo, OITO), uma amante  no Rio e Janeiro com quem teve mais duas crianças e começaria um relacionamento intenso com a jovem Elza Soares, com quem teria outros dois filhos. Para quem perdeu as contas, foram treze no total.

Nos campos, ele já começava a se transformar em um mito. Em casa, vivia como se fosse um miserável na favela. Ele assinava os contratos em branco e ganhava pouco para um jogador de seu calibre. Era o maior nome do Botafogo na época, mas não o maior salário. Como muitos jogadores, seus joelhos começaram a cobrar um preço pelos dribles insanos em cada jogo. A queda física veio acompanhada de escândalos matrimoniais e uma tremenda falta de jeito de lidar com dinheiro (além de interesseiros que aproveitavam para lhe tirar o que sobrava). Em dez anos, ele iria de ídolo a figura trágica.

Seu fraco foi a bebida e uma vida libertina sobre a qual ele não se desculpava. Seu fim foi a síntese de uma vida sem freios e acabou de maneira deprimente.

Conhecia pouco sobre o Garrincha jogador e só pelas descrições dos jogos e dribles que Castro coloca, me deu vontade de vê-lo em ação. Isso é dizer muito sobre o efeito que o livro pode ter. Além disso, terminei o livro com um misto de alegria e tristeza: tristeza pela vida que Garrincha levou depois que deixou os gramados e alegria por ele ter encontrado um biógrafo que, ao menos, fez jus à sua generalidade, ainda que depois de morto.

Hoje, leio sem pestanejar qualquer biografia que Castro escreve justamente porque gosto dessa forma dele de falar de personagens históricas. Garrincha foi grande e sua biografia dá conta de tudo isso e muito mais.

Já tive o prazer de ler um livro de Ruy Castro antes – a biografia incrível que ele escreveu sobre Carmem Miranda. O nível de pesquisa e detalhe é tão intenso, que o leitor pode fechar o livro e dar uma palestra sobre o biografado. Sem contar que Castro escreve de maneira leve, acrescentando detalhes divertidos que ajudam o leitor a humanizar a história. Sem tomar partidos, ele nos conta sobre os fatos que descobriu e deixa que o leitor tenha toda a liberdade de formar uma opinião ou não. Para quem gosta de futebol e biografias, Estrela Solitária é um prato cheio.

Esse foi mais um livro lido para o Desafio do Tigre cujo tema deste mês é “esporte”. 😉

Desafio

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