Resenha – Eu matei Sherazade
por Patricia
em 08/06/20

Nota:

Em minhas andanças pelo mundo da literatura árabe (e você pode conferir episódios dedicados a três livros desse gênero no Rede Poderosa de Intrigas) cheguei a Joumana Haddad. Em grande parte, o livro me chamou a atenção por falar da onipresente personagem Sherazade quando se fala de literatura árabe no Ocidente. O subtítulo “Confissões de uma árabe enfurecida” é, claro, a cereja do bolo.

Haddad abre o livro com uma nota sobre o que devemos esperar começando com “Cara Ocidental.” Ela, então, lista os principais pontos que devemos ter em mente ao ler esse livro, quebrando alguns estereótipos que conhecemos. Haddad não é subjugada, ninguém a proíbe de dirigir, não usa véu, não é analfabeta e nem submissa. Ela quer que você saiba que enquanto existem mulheres árabes que se encaixam nisso, ela não é uma delas.

Apesar de começar desmitificando algumas questões, ela aceita que há, sim, algumas coisas na cultura árabe que complicam o entendimento dos ocidentais que pouco contato tem com eles.

Ser árabe hoje em dia […] significa que sua vida e suas histórias têm de ser abafadas, tolhidas e codificadas, reescritas para agradar os guardiões vestais da castidade árabe, para que estes possam ficar sossegados em relação ao fato de o delicado ‘hímen’ árabe estar protegido do pecado, da vergonha, da desonra ou da mancha. (pág. 17)

Haddad compartilha seu amor pela literatura – algo cultivado pelos pais desde muito cedo. O mais interessante foi sua descoberto do Marquês de Sade aos 12 anos. A literatura abertamente erótica mostrou que as palavras poderiam descrever qualquer coisa. Há trechos muitos bons no livro sobre o papel da literatura e da língua. A autora leu livros controversos em francês porque nunca seriam traduzidos para o árabe. Se a língua é uma das portas da cultura, quanto se perde com livros censurados já no processo de tradução?

Foi com todas essas questões que Haddad decidiu escrever poesia. Erótica. Em árabe. Se algo deveria chocar a sociedade, certamente seria uma mulher árabe escrevendo poesia usando a palavra “pinto” em vez de “mastro” ou outras metáforas fálicas. E ela foi além. Haddad criou uma revista, em árabe, para discutir questões do corpo gerando polêmica.

Haddad vai contra as normas do que se espera de uma mulher árabe, mas não está imune de deixar seus privilégios subirem à cabeça. Filha de pais educados, educada em francês desde cedo (hoje fala várias línguas), viajou o mundo e é esclarecida sobre a situação das mulheres no mundo todo e, principalmente, no mundo árabe.

Ainda assim, quando viu as mulheres árabes comemorando um serviço de táxi com mulheres motoristas para passageiras, achou ridículo. Ela justifica que sabe da violência diária que muitas mulheres vivem no país. Principalmente as mulheres de baixa renda que não receberam a educação mais básica já que seriam donas de casa.

Apesar de tudo isso, ainda me irrita que a única reação de tantas mulheres árabes a seu sofrimento seja se queixar, em vez de tentar encontrar uma solução, um raio de esperança, por menos que seja, em algum ponto de sua realidade cotidiano. ‘Onde há uma vontade, há um caminho’, é muito mais que um belo arranjo de palavras. (pág. 96)

Isso depois de contar a história de uma menina de 16 anos que foi estuprada pelo irmão mais novo e degolada pelo irmão mais velho de acordo com a lei de que se uma mulher mancha a reputação da família, ela deve morrer. Onde será que estaria o raio de esperança dessa moça?

Há vários momento no livro que parece que Haddad mais quer nos convencer de que ser mulher é uma luta constante mas que só ela descobriu como ganhar. Todas as mulheres que reclamam, que querem distanciamento dos homens, que – acreditem – gostam de rosa ou da Barbie, estão erradas. É um feminismo bem seletivo para uma mulher que parece conhecer a realidade do país.

A leitura é válida para conhecer o trabalho de Haddad e o fato de que, há sim, mulheres árabes que saem do modelo que presumimos aqui no Ocidente. Vale também para nos lembrar que nossa realidade não pode ser simplesmente transportada para a de outras mulheres e exigirmos de todas o que exigimos de nós mesmas.

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