Resenha – Eu não vim fazer um discurso
por Patricia
em 22/02/13

Nota:

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Eu nunca me canso de ler Gabo. Já comentei aqui sobre como o estilo de Gabo de escrever me atrai. A forma como ele pensa é diferente e original e suas idéias são sempre cheias de reviravoltas interessantes e inesperadas.

“Eu não vim fazer um discurso” é uma coletânea de, sim, discursos de Gabo ao longo da vida. Seja ganhando prêmios, seja discursando em uma reunião de intelectuais – o que for ou em qualquer lugar do mundo. A melhor parte é que esses discursos são, de fato, palavras do próprio Gabo e não uma personagem que ele criou.

Cem anos de solidão, por exemplo, é um livro que retrata de maneira linda e complexa a solidão da América Latina e, por ter sido o primeiro livro que li de Gabo, eu fiquei com a sensação de que ele sempre foi um dos grandes defensores da região. E em um de seus discursos na Europa, isso veio à tona de maneira brilhante: (amostra grátis enorme à frente)

“Pois se estas dificuldades nos deixam – nós, que somos da sua essência – atordoados, não é difícil entender  que os talentos racionais  deste lado do mundo, extasiados na contemplação de suas próprias culturas, tenham ficado sem um método válido para nos interpretar. É compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua  e sangrenta para nós como foi para eles. A interpretação da nossa realidade a partir de esquemas alheios  só contribui para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários. Talvez a Europa venerável fosse mais compreensiva se tratasse de nos ver em seu próprio passado. Se recordasse que Londres precisou de 300 anos para construir sua primeira muralha e de outros 300 para ter um bispo, que Roma se debateu nas trevas da incerteza durante vinte séculos até que um rei etrusco a implantasse na História, e que em pleno século XVI os pacíficos suíços de hoje, que nos deleitam com seus queijos mansos e seus relógios impávidos, ensanguentaram a Europa com seus mercenários. Ainda no apogeu do Renascimento, doze mil lansquenetes a soldo dos exércitos imperiais saquearam  e devastaram Roma, e passaram a faca em oito mil de seus habitantes.”

Esse trecho é parte de um discurso intitulado “A solidão da América Latina” que foi proferido em Estocolmo em 1982. Nessa época, o mundo julgava os terríveis governos ditadorias que haviam se instalado na América Latina. A década de 80 ficou conhecida como a Década Perdida e muito se dizia sobre a falta de poder do povo latino para retomar as rédeas de seus países. O discurso de Gabo é fantástico porque, em essência, ele diz que nossa história não é diferente da história do restante do mundo…apenas a vivemos em uma época diferente.

Que país pode dizer que nunca teve sangue derramado em seu território? Ou que lutou uma guerra em outro país? O julgamento europeu – principalmente – era quase inaceitável para Gabo. Como eles poderiam dizer que éramos “inferiores” politicamente se a história deles também estava recheada de sangue e injustiça?

Em outro discurso ele comenta sobre um autor italiano que dizia que a América nada mais era do que uma sombra da Europa e defende a criatividade latina como nossa maior arma contra esse tipo de pensamento. Mas esse não é o tema central do livro. Cada discurso aborda um tema diferente e, claro, tem ligação com seu momento: Gabo discursou perante militares colombianos, cinéfilos cubanos, intelectuais latinos, formandos e jornalistas – só para nomear alguns. Os temas variam de poder nuclear a a “institucionalização” do jornalismo a criação de um Ministério da Cultura.

Essa variedade prova o que Gabo comentou mais de uma vez em sua carreira fértil – um bom escritor é aquele que se mantém curioso e disposto a aprender cada vez mais.

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2 Comentários em “Resenha – Eu não vim fazer um discurso”


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Fernanda Souza em 23.02.2013 às 22:02 Responder

Primeira vez que eu paro com calma pra ler seu blog e eu adorei a resenha. Eu nunca li nada do Gabriel, por falta de oportunidade e curiosidade, mesmo sabendo que ele é praticamente uma leitura obrigatória pra quem gosta de bons livros.
Gosto muito de ler e conversar com pessoas sobre a política – apesar de não levar isso pro meu blog. Espero ler em breve esse.

Beijos
Fernanda Souza
http://www.leitoraincomum.com

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Paty em 24.02.2013 às 13:17 Responder

Ah…que linda!! Obrigada pela visita! =D
Olha..não acredito muito em leitura obrigatória, não. Cada um lê o que gosta mas se um dia se interessar, Gabo é uma delícia para se ler. 🙂

Bjos.


 

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