Resenha – Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
por Patricia
em 19/11/14

Nota:

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Ahhh, como eu gosto quando livro de um autor nacional não é só bom, é sensacional. E ainda fiz essa rima incrível, veja só. “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” do paulista Marçal Aquino me foi muito bem recomendado por mais de uma pessoa. Já virou filme com a linda Camila Pitanga e entrou na lista dos “vou ler” por tudo isso e por ter um dos melhores títulos que já vi.

A história gira em torno de Lavínia, uma mulher problemática que faz a cabeça de qualquer um. A primeira parte do livro é narrada em primeira pessoa por Cauby (isso gente, igual ao cantor) – um fotógrafo que está vivendo no interior do Pará em uma cidade que deve passar por uma corrida do ouro logo. Com isso, novas pessoas chegam o tempo todo por ali, principalmente prostitutas e trabalhadores pobres que buscam oportunidades.

Foi ali que Cauby viu Lavínia pela primeira vez em um quadro na loja de um pedófilo local. Quando a viu pessoalmente, percebeu que ali estava um espécime único em beleza. Mal sabia ele o que mais poderia vir dali. Em pouco tempo, tornaram-se amantes. Digo, Cauby virou amante de Lavinia que era casada com o pastor da Igreja local, quase 40 anos mais velho.

O caso sórdido durou por mais de um ano e não terminaria bem para nenhum dos envolvidos. Lavínia, saberemos, não é a típica moça do interior. Com uma infância brutal que envolveu fome, assédio sexual, drogas e negligência, ela trazia na personalidade quem era e quem queria ser: oscilava entre uma Lavínia lasciva e cheia de paixão para uma mais recatada, a mulher casada que carregava a culpa do adultério. Cauby, porém, estava cada vez mais profundamente perdido.

O livro é dividido em 4 partes. Na primeira, conhecemos a história de como Cauby e Lavínia se conheceram e como foram os primeiros meses do caso. A segunda parte apresenta um outro ponto de vista: aprendemos sobre o passado de Lavínia, como ela conheceu e, por fim, se casou com o pastor Ernesto. Aprendemos um pouco mais sobre Ernesto também, o suficiente para saber que ainda que fosse 40 anos mais velho que a esposa, não era um pastor falastrão. Levava a sério sua fé e tinha boas intenções quando decidiu casar-se. Ou seja, não era bem o cara que merecia levar um chifre (também não sei se existe alguém que mereça, mas deixo o julgamento para vocês).

Na terceira parte voltamos para o encerramento da ópera dramática de Cauby. Com direito a surpresas, o autor nos apresenta o desfecho esperado, mas muito mais intenso do que previsto – é só olhar os ingredientes para saber que esse bolo não iria sair dos melhores. Na quarta, nos vem a reviravolta final.

O enredo contém alguns flashbacks de Cauby enquanto causos menores de outras personagens se misturam na narrativa e tudo isso contribui para que o clima de tragédia fosse ampliado. Cada um a seu modo, os personagens transbordam tristeza e desamparo.

Aquino tem ainda diversas obras em prosa e poesia publicadas, mas esse é um de seus livros de maior sucesso. Aliás, foi o próprio autor quem desenvolveu o roteiro para a adaptação do livro para as telonas. Ainda não vi o filme, mas pretendo resolver isso em breve.

Ainda que não seja um tema muito original, o que Marçal cria aqui é uma tragédia interioriana cheia de situações que parecem causos daqueles contados por avós. A leitura é rápida e e isso tem muito a ver com a belíssima escrita de Marçal Aquino. Que belo uso das palavras e maneiras lindas de descrever coisas banais em uma história cheia de realidade cotidiana! Realmente, as indicações estavam certas. É um livro lindíssimo, vale a pena cada minuto da leitura. E é Brasileiro, o que me deixa sempre com um gostinho de felicidade. É um belíssimo exemplar do que a literatura nacional contemporânea tem de melhor.

5 doses de café daqueles de mãe, os mais gostosos.

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