Resenha – Eu tenho um nome
por Patricia
em 27/08/21

Nota:

Gatilho: abuso sexual

Em 2019, escrevi aqui no Poderoso sobre “Missoula”, livro de Jon Krakauer sobre a cidade universitária de Missoula e seu endêmico número de estupros. O livro fala principalmente da Universidade de Montana, mas reforça um problema recorrente nos Estados Unidos: o alto número de estupros que ocorrem dentro das universidades.

Chanel Miller já tinha terminado a Universidade em 2015 quando foi a uma festa com algumas amigas e sua irmã na Universidade de Stanford, que ficava a menos de 10 minutos de carro de sua casa. A familiaridade do local e o ambiente de diversão foram componentes no que se tornou sua designação por anos: vítima.

Em janeiro de 2015, aos vinte e dois anos, eu morava e trabalhava em minha cidade natal, Palo Alto, na Califórnia. Fui a uma festa em Stanford. Sofri um abuso sexual no jardim da casa, no chão. Dois passantes viram, detiveram o homem, me salvaram. Minha antiga vida me abandonou e uma nova começou. Ganhei outro nome para proteger minha identidade: me tornei Emily Doe. [Introdução]

O livro começa exatamente onde essa “nova vida” de Miller começa: naquela noite. Ou o que ela lembra dela. De fato, suas memórias eram tão fracas que ela nem sabia exatamente o que tinha acontecido até o resultados dos exames saírem. Ela se mantinha esperançosa de que todo o trabalho da polícia e das enfermeiras era apenas para confirmar que ela havia sido vítima de uma tentativa de algo, e só isso.

A história de Miller poderia ser a de qualquer outra mulher jovem em um ambiente universitário. Mas o que transformou esse caso em um caso de imprensa e, consequentemente, de discussão em todo lugar, foi que o agressor, Brock Turner, era aluno de uma escola caríssima e uma estrela em ascensão do time de natação, 3x campeão no ensino médio e recordista estadual chegando a participar de etapas classificatórias para as Olimpíadas de 2012.

Miller é muito aberta sobre os efeitos de tudo isso em sua vida. Ela reconhece que Turner também estava sofrendo e explica seu medo de que isso causasse um ressentimento tão grande que ele se tornasse violento. Isso porque enquanto estava na Universidade na Califórnia ela presenciou exatamente isso: um homem revoltado com as mulheres que “acabaram com sua vida” decidiu sair atirando pela cidade. Matou 6 pessoas e a si próprio e, em seu manifesto, diz que a ideia era matar o maior número de mulheres possível. Portanto Miller tinha medo que Turner fizesse algo parecido por ser obrigado a ir a julgamento.

Ela também compartilha sua experiência de ouvir comentários nojentos enquanto andava pelas ruas e o medo que sentia de andar sozinha, apesar de ser algo que ela gostava de fazer. Aos poucos, o livro vai de sua experiência com abuso para uma cartilha do que as mulheres passam, ou temem passar, todos os dias.

O julgamento terminou com um veredito de culpado pelo qual ele poderia receber até 14 anos de prisão. Mas o juiz decidiu que “isso causaria um impacto terrível na vida do rapaz”. Turner foi condenado a seis meses. Serviu três.

Foi aqui que a história de Emily Doe acabou e a de Chanel Miller começou. Ela escreveu uma carta de repúdio que se viralizou, chegando a milhões de visualizações em alguns dias gerando respostas até do, então, Vice-Presidente dos EUA, Joe Biden. Grupos feministas se uniram para uma petição para remover o juiz – algo que não acontecia na Califórnia desde 1932 – o que foi acatado pela Justiça. E Chanel Miller finalmente ganhou força para contar sua história sob seu próprio nome e não se esconder mais.

Enquanto analisa tudo o que aconteceu pós julgamento, ela traça paralelos importantes entre a situação de mulheres vítima de agressão sexual e a comunidade negra vítima de violência policial. Quando se entra numa corte, quem, de fato, está sendo julgado?

Miller é uma escritora talentosa e consegue transformar uma livro sobre um ato violento em um manifesto a favor das vítimas enquanto expõe uma sociedade doente.

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2 Comentários em “Resenha – Eu tenho um nome”


Brenda em 31.08.2021 às 11:51 Responder

Oi, Paty, vi o seu post no Instagram que tinha resenha desse livro e corri ler. Eu acho que não tenho estômago para esse livro, mas lembro muito bem da repercussão desse caso. Assisti ao documentário The Hunting Ground mais ou menos na mesma época, sobre a cultura de estupro nos campi universitários dos EUA (e como quem sempre se ferra é a vítima que, além da violência sofrida, é expulsa da escola e desacreditada por todos). É tudo muito nojento e revoltante.

Não sabia desse livro do Jon Krakauer! =O

Beijo,
Brenda

Patricia em 31.08.2021 às 13:01 Responder

Oi Bre…vou procurar esse doc. Não conheço esse.
O livro do Krakauer é muito bom, mas o resumo da ópera é esse mesmo…a vítima pagando muito mais do que o abusador. 🙁


 

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