Resenha – Faça acontecer (Reupload)
por Patricia
em 22/12/14

Nota:

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Acho bom começar sendo sincera e dizer que minhas expectativas para esse livro eram bem baixas. Acompanho o debate de igualdade, questões feministas e venho tentando me empenhar mais em conhecer a luta de mulheres que hoje sei que devo agradecer. Mas tenho certa dificuldade em ouvir histórias de sucesso de pessoas que tinham a faca e o queijo na mão. Sempre achei muito mais interessante conhecer Silvio Santos do que Eike Batista que é filho de ricos e apenas teve o trabalho – árduo – de manter a família na riqueza. Ser camelô é que ninguém quer.

Acho muito simples ser inovador, empreendedor e etc. se você não precisa se preocupar em perder o dinheiro da parcela do financiamento de 30 anos do seu apartamento. Dinheiro viabiliza oportunidades. Essa é só uma das injustiças do sistema em que vivemos.

Então peguei esse livro com o pé atrás porque Sandberg é formada em Harvard, trabalhou para o Governo, para o Google e hoje está no Facebook. Pense aí quantas pessoas você conhece que tenham somado, em vinte anos, conquistas como essas (ou similares). Então vi Sheryl como uma mulher que sempre teve a faca e o queijo suíço na mão.

Rapidamente percebi que não é possível fazer essa analogia a uma mulher: com os parâmetros institucionais atuais, a mulher pode ter o queijo ou a faca na mão mas raramente ambos. Sheryl pode ter tido diversas oportunidades que muitas não tiveram (e nem terão) mas ela ainda enfrentou a maioria das grandes questões femininas que sempre aparecem acompanhadas de culpa por ter deixado a outra possibilidade de lado.

Em seu livro, Sandberg não quer discutir o mundo empresarial do ponto de vista de ‘como ele é’. Ela quer dizer o que cada mulher pode repensar sobre si mesma enquanto parte integrada e atuante nesse mundo. A verdade é que muitas mulheres já internalizaram certas coisas repetidas ao longo dos anos e isso faz com que elas repensem situações que nunca sequer seriam questionáveis para homens. Exemplo clássico: conheço mulheres que se preocupam ANTES DE ENGRAVIDAREM com a possibilidade de serem promovidas a gerente da área (ainda não são) e não conseguirem tempo para cuidar dos filhos (que nem existem ainda).

Essas são as que se retiram do ringue antes da luta começar. E ninguém pediu isso delas, foi uma decisão própria e talvez, em algum nível, elas nem percebam que estão se excluindo do debate. Agora pense quantos homens você conhece que se preocupam com questões desse tipo. (Use o tempo que precisar). Sheryl, de fato, dedica um capítulo inteiro a esse tipo de situação. Ela também conheceu diversas mulheres que desistiram antes de começar, mas também dá exemplos de outras que assumiram o desafio.

O livro tem um tom de auto-ajuda e isso vem do contexto. Mas definitivamente não é o foco de Sandberg. Como definiu minha amiga Fernanda (que me emprestou o livro): é um misto de auto-ajuda + biografia + manifesto feminista. E tudo isso resulta em verdades incômodas. Para ilustrar, aqui vão algumas pérolas sobre mulheres e trabalho que ouvi (de pessoas de diversos níveis hierárquicos) em quase 10 anos de carreira durante os empregos que já tive (*ao final do post acrescento outras que colhi no Facebook):

Quantas vezes ouvi comentários semelhantes sobre homens? Nunca.

Tudo isso para dizer que o mundo profissional que Sheryl atuou (e ainda atua) não é muito diferente do que vemos hoje. Pode-se imaginar que em vinte anos as coisas teriam evoluído e coisas como essas que descrevi seriam repelidas em uma conversa em grupo; que elas seriam a exceção. Só que elas continuam sendo a regra. E a formação, o dinheiro e a capacidade da mulher não parece mudar isso. Pelo menos não com a profundidade necessária. 

As reações ao livro têm variado muito. Mas não preciso concordar com tudo que Sheryl diz para entender perfeitamente o que ela sentiu quando precisou  negociar um salário e não sabia por onde começar porque o tempo inteiro ela pensava em não ser agressiva demais mas ser agressiva o suficiente. Não é necessário que você se intitule feminista para entender as diferenças com que as mulheres são tratadas no dia a dia e como isso pode se refletir no salário no final do mês.

O livro é direto, bem objetivo e a escrita de Sandberg é suave sem soar professoral e a pesquisa foi realmente conduzida com afinco: estamos falando de mais de 50 páginas só de notas que corroboram os fatos citados.

Acho que a leitura é valiosa para quem almeja mais na vida do que ser apenas estagiária sem abrir mão da vida pessoal enquanto questiona o tempo todo: “como vou fazer tudo o que quero fazer?” e já começa a pensar no que tem que ser deixado para trás. Sheryl mostra que a única coisa que deve ficar para trás é justamente esse pensamento.

***

*Comentários ‘simpáticos’ relatados por amigos meus no Facebook:

Aqui fica também a ótima palestra de Sheryl no TED, na qual ela resume em 15 minutos os principais pontos que aborda com mais profundidade no livro.

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4 Comentários em “Resenha – Faça acontecer (Reupload)”


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Fernanda em 03.02.2014 às 09:25 Responder

Adorei a resenha! Esse é o tipo de livro que toda mulher deveria ler, ele realmente faz você repensar diversos pontos em sua vida.
Bjos

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Paty em 03.02.2014 às 14:16 Responder

Verdade. Até pelo sucesso profissional que ela teve, acho que a gente não imagina que ela possa ter tido as mesmas dúvidas ou passado pelas mesmas coisas. 🙂

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Franciele em 11.08.2017 às 12:39 Responder

Excelente resenha! Eu estava em dúvida sobre ler ou não este livro da Sheryl Sandberg exatamente pelo motivo que você abordou no início do seu texto, Patrícia: desconfiança de ser mais um daqueles livros de quem não tem nada a arricar e, portanto, a perder porque vem de uma família rica. Mas você conseguiu derrubar meu preconceito a partir da respectiva que colocou: que se trata do livro de uma mulher no mundo business, pelo que a coisa não é bem assim. Obrigada! Lerei o livro um pouco mais desapegada de desconfianças.

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Patricia em 11.08.2017 às 16:01 Responder

Oi Franciele!! Obrigada!! 🙂 Sim, eu comecei com essa sensação de “ah ta”, rs, mas fui percebendo que ela relata muitas coisas – tanto que vivenciou quanto que viu em outras colegas que eu já vivenciei e vi muito também. No fim, as experiências de uma mulher no mundo dos negócios segue pautada em grande parte pelo gênero e aí não importa se ela tem dinheiro ou não. Acho que Sheryl, no fim, conseguiu fazer com que isso fosse irrelevante para sua experiência, mas é uma tarefa árdua. 🙂 Depois conta o que achou da leitura.


 

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