Resenha – Feios
por Patricia
em 02/07/12

Nota:

Feios é uma obra de ficção sobre um mundo onde existe uma divisão entre pessoas consideradas bonitas (ou perfeitas) e as pessoas consideradas feias. Há duas cidades principais onde as pessoas feias e bonitas ficam separadas. Ao completarem 16 anos, as pessoas passam por cirurgias obrigatórias que retiram tudo o que é considerado imperfeito e elas podem se mudar para Nova Perfeição – onde apenas as pessoas perfeitas vivem de festas, sem qualquer resposabilidade.

As cirurgias foram criadas para que as pessoas parassem de se julgar baseando-se na cor da pele, cabelo, tatuagens, cicatrizes, olhos vesgos e etc. Ou seja, a criação de pessoas perfeitas e padronizadas foi justamente para evitar racismo e preconceitos mesquinhos dos seres humanos.

A personagem principal é Tally que está quase completando 16 anos e sonha em se tornar perfeita. Ela vive imaginando como será sua vida quando tudo for perfeito e se acha feia de uma maneira cruel. Quando se infiltra no mundo perfeito para visitar seu amigo recém operado, Tally quase é descoberta. É nesse contexto que ela conhece Shay.

Shay também é uma feia. Mas ela não parece se importar muito com isso e se rebela contra a idéia de que apenas quando se é considerado perfeito é possível ser feliz e decide fugir para uma cidade onde ninguém é obrigado a passar pela cirurgia – porque onde todo mundo é feio, ninguém é feio. Mas Tally não entende essa lógica. Ela vive obcecada pela idéia de se tornar perfeita, manipulada pela biologia e o que todo mundo diz que se deve fazer e ser. Tally é chata. Ela é toda adolescente leitora de revistas de moda que acredita que se você não tem a saia no tom certo de marrom, você nunca será alguém na vida. Ela é a adolescente que precisa de celular e maquiagem para ir para a escola..não para ser diferente, mas para se misturar. A história eleva o termo “Ditadura da beleza” a um novo patamar.

Mas algo dá errado antes da cirurgia de Tally e ela é, basicamente, forçada a escolher entre ser perfeita e trair uma das únicas pessoas que foi sua amiga independente de sua aparência. Ela se infiltra na cidade dos feios que fugiram e começa a enfrentar sua consciência, se dividindo entre seu sonho e sua amiga.

A imaginação do autor quase que trabalha contra ele. Ao descrever o caminho para Fumaça – cidade onde o grupo de feios fugitivos vive – ele se perde. Honestamente, a descrição é chata e beira o irritante.

Na Fumaça, Tally descobre o que era considerado bonito há 300 anos – quando aparentemente as cirurgias começaram. Ao folhear uma revista ‘antiga’ de celebridade ela percebe que  havia diversas pessoas que não pareciam envergonhadas de não serem “perfeitas”.  O mais estranho é ver nosso atual e distorcido conceito  de beleza colocado como “um conceito mais democrático de beleza”.

Tally encontra um mundo completamente novo e aprende detalhes sobre sua estimada operação que abrem sua cabeça para um mundo novo e novas possibilidades. Ela começa a ver que ser igual não é necessariamente ser melhor e que, na verdade, tem muita beleza no que é diferente.

Tudo o que acontece na Fumaça serve para manter o enredo rolando enquanto você começa a se perguntar onde tudo isso vai dar e qual a lição que o autor quer que o leitor tire do livro. Não é que ser bonito é subjetivo. Por que tenho certeza que quando pensaram nos perfeitos, 95% das pessoas que liam o livro pensaram em meninas brancas de cabelo liso.

O que o autor nos mostra é que nós JÁ ESTAMOS programados a ver beleza de determinada forma. As plásticas que vemos hoje são padronizadas, elas só não são obrigatórias. A história de Westerfeld é o extremo do modelo que criamos hoje em todas as revistas de beleza. Ultrapassa a padronização da beleza e se torna a padronização do pensamento.

Infelizmente esse é um tipo de reflexão que um jovem de 12 anos não poderia fazer. Muitas das pessoas que leram o livro provavelmente vão pensar que o livro é bom e “puxa, ainda bem que não somos assim”, sem refletir nem por um segundo que já estamos quase vivendo o que o livro descreve. Não nos extremos de dividir as cidades e todo o bla bla bla que o autor coloca para enfeitar a história, mas no conceito do bonito X feio e na idéia de que beleza significa quase automaticamente sucesso e boa vida.

Se metade das pessoas que lerem esse livro conseguirem entender isso, já é considerável porque esse é um debate muito importante. É essa crise de identidade do bonito X feio que faz com que a geração que cresce agora seja intrinsecamente insegura e desesperada em agradar. Esse tipo de pessoa não reclama, não muda o mundo, não se rebela, não transforma sua realidade. Elas se sentem contentes em serem aceitas.

Para elucidar tudo isso, indico o documentário sobre a mídia e a forma como as mulheres são retratadas atualmente (com legendas em português). O foco do documentário é a mídia norte-americana mas acho que fica claro que essa é uma epidemia que está se espalhando:

http://www.youtube.com/watch?v=7ADwg9fBEB0

Dado o contexto atual, é impossível não pensar que o modelo de “Feios” seja uma realidade muito próxima e assustadora.

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8 Comentários em “Resenha – Feios”


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Reinildo em 02.07.2012 às 12:58 Responder

Resenha perfeita. É interessantes ler opiniões de pontos de vista diferentes.
Sabe que eu não tinha percebido Tally como “chata. Ela é toda adolescente leitora de revistas de moda que acredita que se você não tem a saia no tom certo de marrom, você nunca será alguém na vida…”?!
Achava que ela simplesmente era pressionada pela opinião popular do que é ser “perfeita” e a obrigação de ser “igual” aos outros.

Gostei muito da resenha e do blog.

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opoderosoresumao em 02.07.2012 às 13:01 Responder

Oi Reinildo…concordo. É que para mim, isso se torna muito chato. A forma como ela reluta em aceitar o que Shay tenta desesperadamente explicar, me incomoda.

Mas acho que o que você disse é correto. Ela é pressionada pela opinião popular mas enfim…no final ela se redime um pouco. rs

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Gabriel (Trovão) em 02.07.2012 às 13:02 Responder

Boa a resenha e boa a proposta por trás do livro! Deu vontade de ler… logo, como já dissemos, missão cumprida em dobro =)

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opoderosoresumao em 02.07.2012 às 13:45 Responder

Ponto duplo! =) rs

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Fernanda em 02.07.2012 às 16:16 Responder

Muito Boa !

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thanny em 03.07.2012 às 12:44 Responder

Simplesmente adorei a forma que você captou a mensagem do livro, é exatamente essa crítica que o autor faz para nossa sociedade atual. Estou sem tempo de ver o documentário agora, mas adorei a dica.

Beijos,
whosthanny.com

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opoderosoresumao em 04.07.2012 às 20:56 Responder

Oi Thanny!! Obrigada…quando puder, veja o documentário, sim. É muito bom e traz um pouco de perspectiva. =)

Até porque..não sei quanto tempo vai ficar no ar. rs
Bjos.

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Reinildo em 03.07.2012 às 13:04 Responder

Outra realidade do nosso cotidiano abordado pelo livro é a dependência cada vez mais do uso da tecnologia nos meios de comunicação.
A personagem Tally deixa isso claro quando diz que não sabe escrever à mão.


 

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