Resenha – Feliz Ano Velho
por Patricia
em 05/01/16

Nota:

Unknown

Há muitos anos, encontrei nas estantes dos meus pais uma edição antiga de Feliz Ano Velho. O livro chamava a atenção por ser uma história real de superação: um jovem, em uma brincadeira adolescente quase, que teve que viver o impensável.

Marcelo estava com alguns amigos e resolveu mergulhar num rio. Porém, o rio era muito raso e ele bateu a cabeça. Com o baque, sua espinha quebrou e ele foi levado ao hospital sob o risco de ficar tetraplégico. O evento me lembrou muito o que aconteceu com o espanhol Ramon Sampedro e que rendeu o fantástico filme Mar Adentro com Javier Bardén no papel principal (e se você ainda não assistiu, faça esse favor a si mesmo).

Mas, ao contrário de Sampedro que ficou tetraplégico de verdade e, mais tarde, ficou conhecido na Espanha por ter feito um pedido de eutanásia ao Governo, Marcelo foi levado a um dos melhores hospitais do país e ali ficou por algum tempo. Cirurgia após cirurgia e com muito tratamento, aos poucos ele recobrou os movimentos dos braços. As pernas, porém, nunca mais se mexeriam.

O livro é contado do ponto de vista do próprio Marcelo do que ele lembra dos terríveis dias que passou. Não se pode descartar a história de superação de Paiva. O livro, porém, não é um grade feito. Lançado quando o autor era bem jovem, me parece que o estilo de escrita ainda não estava firme o suficiente. Muitas coisas ficam soltas, contadas como se fosse um diário mas não com a profundidade que o leitor precisaria para, possivelmente, se engajar (na falta de um termo melhor) na historia.

O pai de Paiva foi um deputado caçado pela Ditadura. Marcelo toca no assunto mas não se aprofunda nisso. A família dele apoiou o PT desde o início do partido. De novo, Marcelo toca no assunto mas não se aprofunda nisso. Em certos momentos, é cansativo de ler páginas atrás de página de um jovem pensando se poderá fazer sexo de novo. Claro que isso é um problema que deve frustrá-lo muito, mas não consigo imaginar se o Marcelo de hoje daria as mesmas prioridades aos problemas que teria (ou pensava que teria) no futuro.

A verdade é que o livro acaba por nos dar uma impressão superficial do autor. Até mesmo os eventos difíceis, como a fisioterapia que não terminava, a dor que ele descreve bem, não são o suficiente para criar o elo definitivo com o leitor.

Atualmente, entre outras coisas, Paiva escreve no Estadão sobre temas variados. Lendo seus novos escritos, é bem clara a evolução do autor. Firme, incisivo, objetivo e, por vezes, sarcástico, Paiva parece ter encontrado seu estilo. Em Feliz Ano Velho, infelizmente, ainda não era possível identificar nada disso.

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O livro foi enviado pela editora.

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