Resenha – Filhos de Anansi
por Thiago
em 03/06/15

Nota:

anansi

Vamos a mais uma história de Neil Gaiman, mas não um quadrinho e sim um livro. A história em questão retoma um dos personagens presentes em “Deuses americanos”, no caso o deus africano Anansi.

“Filhos de Anansi” é com certeza o melhor livro que li até agora em 2015, para o leitor desavisado vale ressaltar que esta história não tem a mesma pegada grandiosa da anterior. Deuses americanos envolve todo um panteão, ou melhor, panteões de deuses, aqui temos algo mais específico, a mitologia africana e caribenha. Além disso, o nome tanto em português quanto em inglês (Anansi boys), determina por onde a saga caminha.

Uma breve sinopse pra facilitar a vida: O livro conta a história de Fat Charlie, um tímido americano que escolheu ter uma vida pacata e sem-graça como contador numa empresa londrina. Ao ir ao funeral de seu pai, Sr. Nancy, Fat Charlie descobre por uma velha amiga da família, que seu pai era o deus Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana. A partir desse episódio, sua vida vira de cabeça para baixo. Junto a isso descobre que tem um irmão, de nome Spider, que herdou os poderes divinos do pai. Ao conhecê-lo sua vida se bagunça ao extremo.

Para além dessa sinopse podemos perceber que o tema central aqui é a relação familiar, principalmente entre pais e filhos, e entre irmãos também. O interessante é que este é um problema universal que toma proporções mágicas nas palavras de Gaiman. Como já é característico do autor, aqui a mescla entre fantasia e realidade se inicia de modo leve e quando você menos percebe já está lendo uma cena surreal, com animais falantes, distorções de realidade, deuses e mais deuses e mitos de todos os tipos.

Uma das coisas que faz tudo ficar mais cativante e ter um toque de verossímil é a construção de personagens reais, como Fat Charlie. O herói por acaso é alguém comum, como todos nós, ou as vezes mais comum ainda que muitos de vocês.

A personalidade insossa e a vida banal do personagem pricipal são o grande truque, pois através delas a narrativa começa pacata, inserindo calmamente elementos fantásticos, de forma bem leve e gradual, até termos o misto da mitologia na realidade.

Falando nisso, você sabe o que são mitos? De forma breve são narrativas que explicam o surgimento de algo. Quase toda religião tem seus mitos, então estes, para os que acreditam, não são histórias inventadas ou mentirinhas, são questões de fé. O bom fiel crê na existência de sua crença, a partir dessa ideia Gaiman explora nesse universo possibilidades diversas onde mito e realidade se conectam, ou se religam, ideia essa que vêm de uma das teorias da origem da palavra religião, que viria do do latim “religare” ou “relegere” e nos traria a ideia de religar nossa alma a deus e porque não a deuses? (porque essa explicação veio da igreja católica, que no caso é monoteísta, mas isso é só um detalhe né?).

Voltando a proposta inicial do livro, as relações familiares. Toda família é cheia de problemas, irmãos que não conversam, pais que traumatizam seus filhos com um  monte de coisa que só anos e anos de terapia poderam amenizar, agora imagina se seu pai for o deus africano das histórias e da troça, da zombaria? Seguindo essa linha, podemos perceber como o personagem principal se tornou assim, meio sem sal e sem graça, pela relação paterna com o deus do bullyng.

Este livro foi incrível pra me fazer refletir sobre um monte de coisas, como a pessoa que sou e a relação que tenho com o mundo externo, principalmente com o outro. Essa parte devo ao personagem Spider e nas fábulas de Anansi inseridas na narrativa.

Como o livro mesmo diz, todas as histórias são de Anansi, o deus aranha, ou seria macaco? Mesmo assim ele se parece com um ser humano.

Cuidado pra não se perder no emaranhado das teias de Anansi, além disso boa leitura a todos!!!

Abraço.

gaiman

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2 Comentários em “Resenha – Filhos de Anansi”


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Rafael Felipe Gati em 11.06.2015 às 16:05 Responder

Neil Gaiman é um puta de um escritor, tenho já li alguns livros e HQs deles, inclusive Deuses Americanos, porém falta ainda ler este livro, e essa resenha só atiça a vontade de ler.

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Eric Venice em 28.02.2020 às 18:41 Responder

Uma das melhores obras da minha vida. Eu a incluí entre Nietzsche e Dostoiévski, minhas leituras preferidas. Neil Gaiman é fora de qualquer série possível.


 

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